Carro: o grande vilão do ar


(ilustração: Frederico Oliva e Hugo Oliveira)

Em setembro de 2004 uma reportagem da Folha de S.Paulo destacava: “O inverno de 2004 ainda nem acabou e, em relação aos últimos cinco anos, já é o campeão em registro de má qualidade do ar na Grande São Paulo.”

Nesta terça-feira (15) foi anunciado que o inverno de 2006 superou o de 2004 e entrou para a história como o mais poluído nos últimos 10 anos.

A fonte é o relatório de qualidade do ar no Estado de São Paulo, feito pela CETESB e que pode ser baixado aqui.

Os veículos motorizados são os grandes responsáveis pela poluição na cidade.

Em 2006, carros, motos, ônibus e caminhões emitiram 97% de todo o monóxido de carbono, 97% dos hidrocarbonetos e 96% dos óxidos de nitrogênio e 40% de material particulado presente no ar que o paulistano respira.

Ao contrário do que sugere a fumaça preta do ônibus, o principal responsável pela poluição em São Paulo continua sendo o automóvel particular (veja a tabela abaixo).

Não precisa ser cientista para desconfiar que os quase seis milhões de carros poluem muito mais e são muito menos úteis do que os 430 mil veículos a diesel (caminhões ou ônibus) ou as 870 mil motos (que, em boa parte, existem para suprir a imobilidade da sociedade do automóvel).

(relatório de qualidade do ar no Estado de SP – CETESB)

clique na imagem para ampliar a tabela
ou faça o download do relatório

Massa crítica, polícia e política


(foto: Jefferson Siegel / The Villager)

Perseguidos pelas autoridades desde que Bush filho pisou em Nova Iorque, os participantes da massa crítica daquela cidade surpreenderam a polícia com uma estratégia inusitada na edição de abril do encontro.

No início da pedalada, quando os guardas se preparavam para prender e multar os participantes, os ciclistas simplesmente desmontaram de suas bicicletas e as empurraram até a estação de metrô (onde elas são aceitas em todos os dias e horários da semana).

Assim como veio, a massa desapareceu. Usando a integração com o metrô, os ciclistas se espalharam pela cidade em grupos menores e seguiram pedalando.

Atualmente, a lei que exige permissão dos órgãos de trânsito para “paradas” ou manifestações só vale para grupos com mais de 50 pessoas, mas os ciclistas continuam afirmando que a massa crítica é apenas um congestionamento de bicicletas.

A ação repressiva da polícia começou ainda em 2004, quando o Partido Republicano de W. Bush sitiou uma parte da cidade para realizar sua convenção. Naquela noite do mês de agosto, a massa crítica resolveu fazer seu trajeto costumeiro, desafiando as cercas da guerra impostas pelos generais do petróleo. Cerca de 260 ciclistas foram presos.

A partir daí, a prefeitura (do também republicano Bloomberg) começou a reprimir a ocupação mensal das ruas. Diversos cidadãos foram processados sob a acusação de “parading without a permit” (algo como “realizar uma manifestação sem permissão”). A maior parte acabou inocentada depois de longos e caros processos.

Por se tratar de uma “coincidência combinada” (e não de uma manifestação) os ciclistas que se reunem mensalmente em Nova Iorque alegam que não precisam de autorização para utilizar em grupo seus veículos a propulsão humana. Afinal, como diz um dos slogans da massa crítica, as bicicletas não atrapalham o trânsito, elas também são o trânsito.

A repressão à massa crítica já custou US$1,3 milhão aos cofres públicos de Nova Iorque.

Em Berkley (Califórnia), a agressão contra os participantes da massa crítica partiu de um motorista enfurecido durante a edição de maio da pedalada.

O motorista alega que foram os ciclistas que criaram caso. Diz ainda que os participantes da massa crítica quebraram o para-brisa e a porta do carro (não é bem esse o clima do vídeo acima). Por hora, a situação na Califórnia ainda não passa por multas e prisões, como em Nova Iorque.

E em Utrecht (Holanda), a polícia interrompeu uma bicicletada pacífica e prendeu diversos ativistas que se articulam em protestos contra o G8 (encontro dos oito “donos do mundo” que acontece em junho, na Alemanha).

Seja em Nova Iorque da convenção republicana ou nas rodadas mundiais de negociação sobre o futuro do planeta, o uso de aparato de segurança contra civis e a violação dos direitos de expressão, manifestação e organização constituem uma parte importante da política “anti-terror”.

Mar

“Moisés” gentilmente cedido por Paulo Zeminian,
originalmente publicado na revista Ocas


(laerte / fsp)

acima e abaixo, recortes enviados por leitores


(renato machado / dsp)

Dois raios no mesmo lugar

maio/2007

Os “acidentes” de trânsito já são a principal causa mundial de morte de crianças e jovens no mundo.

Segundo dados da OMS (Organização Mundial de Saúde), do total de 1 milhão de mortos anuais, 400 mil têm entre entre 10 e 24 anos de idade.

Além das vítimas fatais, outras 50 milhões de pessoas sofrem algum tipo de “acidente” envolvendo veículos motorizados. Boa parte fica com seqüelas ou traumas permanentes.

O custo dos “acidentes” no mundo foi estimado pela OMS em US$518 bilhões. Todos os dados estavam nesta reportagem (para assinantes) do jornal O Estado de S.Paulo.

Ciclo-barricada

“Na manhã desta quarta-feira (9) uma onda de buscas e apreensões tomou conta da Alemanha. A polícia federal invadiu cerca de 40 lugares em Berlim e outras cidades, incluindo centros sociais e várias residências, em busca de projetos e pessoas suspeitas de estarem se organizando contra a reunião do G8, que se realizará no início de junho no país.” [continua no centro de mídia independente]

Virada Cultural – lado B

Assim como Eduardo, um menino de 10 anos que chorava sentado no chão de um estacionamento da região central, eu nunca tinha ido a um show de rap.

Eduardo, que mora “depois de Santo Amaro”, tinha se perdido dos amigos depois que as bombas e o gás lançados pela polícia acabaram com o show dos Racionais e provocaram uma correria que poderia ter terminado em tragédia.

Tiros, cassetadas, chingamentos e viaturas em alta velocidade sendo usadas como arma contra homens, mulheres e crianças causaram pânico na multidão que tentava ir embora depois que as bombas intoxicaram o ar na Praça da Sé. Revoltados, alguns depredaram lixeiras, orelhões, carros e vitrines.

O vandalismo e a depredação mostrados pela mídia de massa como justificativa para a ação “enérgica” da polícia aconteceu depois das bombas. Não foi causa, mas sim conseqüência.

O que aconteceu antes das bombas (pessoas em cima da banca de jornal ou brigas) foram situações isoladas, envolvendo algumas dezenas de pessoas, que não justificavam a dispersão da multidão com o uso de armas químicas, terror psicológico, violência física e verbal.

A incapacidade da polícia de separar bandidos e população é preocupante em qualquer país que se diz democrático.

No lado do povo, configuravam minoria absoluta os que estavam dispostos a qualquer tipo de violência. No lado da polícia, cumpre-se ordens.

Afirmo como testemunha que circulou pelo local: o clima era de paz. Respeito e alegria se faziam mais presentes do que em qualquer noite nas “Vilas” Olímpia ou Madalena. Era visível para qualquer um que pisou na praça da Sé que 99,9% das pessoas presentes estavam ali apenas para curtir o show.

Xico Sá presenciou uma das situações apontadas pela mídia de massa como a causa do tumulto e escreveu o melhor texto publicado até agora sobre o assunto.

Tristes as declarações das autoridades de plantão.

Triste a cobertura mentirosa e sensacionalista da chamada grande mídia, que estimula o ódio e promove a desinformação ao mostrar apenas cenas de violência e dizer que “houve um conflito”, distorcendo a ordem dos fatos em uma narrativa estapafúrdia dos acontecimentos.

Interessante notar que dois dos principais veículos virtuais (Folha e G1) pediam fotos aos seus leitores no domingo. Em vez de pagamento pelo trabalho, ofereciam a maravilhosa “oportunidade” de ter a sua foto estampada no jornal. Havia pouca imprensa, poucas cameras, poucos fotógrafos.

Mesmo assim, jornalões e jornaizinhos relataram absurdos, disseram que tudo começou por causa do atraso no show (quem estava lá sabe que não houve nenhuma revolta com o horário), emitiram opiniões preconceituosas e idéias estapafúrdias a partir de suas “Vilas” blindadas.

O terrorismo midiático serve apenas para reforçar o racismo e o pânico de quem vive em um dos países mais desiguais do mundo, mas não quer entender que é preciso dividir a riqueza e as oportunidades.

Generalizar a imagem de que a “senzala é perigosa” demonstra apenas a truculência de quem (como o Dr. Fantástico de Kubrik) sente espasmos involuntários para levantar a mão direita e dizer “heil, Hitler” a espera de uma “solução final”.

Non dvcor, dvco

Virada Cultural – lado A


As calçadas são estreitas, ocupa-se as ruas
Virada Cultural, São Paulo. Durante 24 horas, pessoas de todos os tipos resgatam o espaço público em atividades culturais e através da convivência nas ruas.

A Virada é um grande “reclaim the streets” institucional, realizado pela Prefeitura.

Alguns amigos argumentam que a política cultural do município tem se resumido a estes eventos anuais e que a cultura é usada a serviço do processo de gentrificação das camadas mais baixas da região central.

Não sei se é bem por aí. É claro que existem problemas na política cultural brasileira (incluído aí o município) e no processo de “revitalização” do centro, que expulsa os pobres para promover a especulação imobiliária e a adequação do espaço à funcionalidade capitalista.

Os problemas da cultura ou da “revitalização do centro” não estão na realização da Virada, mas sim na “não realização” ou na “não implantação” de outras atividades e políticas.

A Virada Cultura é extremamente “revolucionária” ao promover a convivência entre as pessoas em uma cidade que, a todo instante, segrega, estimula e confina seus habitantes.

A programação, como no ano passado, estava muito boa. O metrô funcionando 24 horas deixa sempre um gostinho de quero mais. As pessoas nas ruas, de todas as idades, raças e tipos conviveram em paz e aproveitaram a programação.

O clima de paz imperava nas ruas, mostrando que o ser humano, quando respeitado e valorizado, convive em paz e harmonia.

Minorias dispostas ao confronto eram, como sempre, minorias.

Se a atitude da polícia e de alguns espectadores durante o show dos Racionais foi lamentável, o problema não está na Virada Cultural, mas sim na polícia e no comportamento de alguns espectadores (mais sobre o assunto na próxima postagem).

Como foi dito no ano passado “tomara que o povo goste e resolva resgatar o espaço público todos os dias”.

Sociedade do Automóvel e debate com Paulo Saldiva na FEAmbiental

Por conta dos bandidos espanhóis que me deixaram sem internet, não foi possível divulgar antes (nem de forma completa), mas a partir da próxima segunda-feira o Centro Acadêmico Visconde de Cairu (FEA-USP) promove a I Semana do Meio Ambiente da FEA.

Na segunda-feira (07), às 15h, haverá a exibição vídeo Sociedade do Automóvel e um debate sobre o tema.

No mesmo dia, só que às 19h, participarei de um debate sobre o tema “Transporte, poluição e urbanismo”, que contará também com o professor Paulo Saldiva (ciclista e um dos maiores estudiosos sobre a poluição no mundo) e Teresa Emídio (SVMA).

A I feambiental acontece na FEA-USP (av. Professor Luciano Gulaberto, 908, Cidade Universitária).

Confira a programação no site do CAVC.

Eu odeio a Telefônica – parte 1

Escrevo esta postagem de uma lan-house perto de casa. Minha internet banda-larga (da Telefônica) está fora do ar desde quinta-feira pela manhã. Até agora, gastei mais de 3 horas em conversas telefônicas, ouvi um punhado de MENTIRAS dos atendentes, me senti um palhaço ao repetir dados pessoais que tinha acabado de digitar ao telefone, perdi dois dias de trabalho e tive o telefone desligado na cara duas vezes.

Por fim, às 10h da manhã de ontem (sexta) uma ligação da Telefônica prometia um técnico para aquele mesmo dia. Horário comercial, das 9h às 18h. A moça ainda perguntou: “vai ter gente em casa neste período?”. Era mentira. O prazo para a visita técnica é de 48h, informação que só descobri ao ligar para o atendimento da empresa às 17h, depois de ficar esperando sete horas.

Ou seja, quando você tem um problema com um serviço prestado, deve ficar de plantão durante dois dias para receber o técnico. O atendimento das empresas privatarizadas é assim mesmo: parece que você está fazendo um favor a eles ao consumir o produto. É o único tipo de serviço que não marca hora para os atendimentos, pois a única coisa que importa para eles é otimizar os lucros.

A “visita técnica” provavelmente acontecerá em um horário bastante simpático: a manhã de domingo. E ai de mim se não estive em casa ou não acordar para recebê-los. Mais 3 horas de telemarketing e 48 horas de plantão…

Ao longo da semana (se a internet voltar a funcionar), publico um resumo mais detalhado da saga contra os bandidos espanhóis, que continuam a saquear o Brasil 500 anos depois.