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SP em movimento – estatísticas sobre mobilidade
14/10/2006 – 15h01
Os dois órgãos executivos responsáveis pela mobilidade em São Paulo nunca conversaram. De um lado a bem-equipada e moderna CET. De outro, a capenga e sucateada SPTrans, responsável pelo serviço transporte público na capital (aí incluídos os taxis).
A CET, que deveria se preocupar com a circulação de todos os habitantes, consolidou-se como gerente do caos motorizado, responsável quase que exclusivamente pelo “bom” fluxo das ruas, ou seja, tem como missão garantir ao menos 10km/h de velocidade média para os 30% possuidores de automóveis.
A SPtrans surgiu com a extinção da antiga CMTC (empresa estatal que gerenciava os ônibus da capital). Sua estrutura é precária, seus postos de venda parecem saunas e o atendimento ao público é péssimo.
Uma comparação entre os sites dos dois órgãos é um bom começo para entender quais são as prioridades desta cidade.
De qualquer forma, uma pequena iniciativa reuniu as duas empresas públicas, pelo menos no campo virtual. Trata-se do São Paulo em Movimento, site que reúne informações e estatísticas sobre transporte público e trânsito em São Paulo.
Como o próprio nome já diz, são “dados básicos” e extremamente limitados. Não há, por exemplo, informação sobre a média de congestionamentos, número de deslocamentos por bicicletas, poluição emitida pelos diferentes meios de transporte ou tipos de infrações mais freqüentes.
É interessante descobrir, por exemplo, que a cidade tem apenas 158 vagas para deficientes físicos, ou que apenas 550 dos 17.000 km de ruas são monitorados pela CET.
As novidades descobertas no São Paulo em Movimento foram adicionadas à seção Apocalipse em Números que, cá entre nós, está bem mais completa que o site oficial.
Carro-Rei II
12/10/2006 – 18h21
Este é um clássico: na porta do colégio a impunidade vigora. Para evitar que as crianças cada vez mais gordas e sedentárias andem pelas “perigosas” ruas da cidade, pais e mães costumam fazer estripulias com suas máquinas nas proximidades das escolas particulares de São Paulo.
Além da fila dupla, a cidadã (?) do mamute acima também estacionou seu pequeno veículo em cima da faixa de pedestres para buscar seu pimpolho na escola. Nada que um pisca-alerta não resolva…
Para fugir do ensino público “ruim”, escola privada para os filhos. Para fugir do espaço público “ruim”, transporte privado para toda a família.
O que é público é ruim porque foi abandonado pelos “30% de cima” ou os “30% de cima” abandonaram os espaços públicos porque eles são ruins? Como todo ciclo vicioso, não é fácil identificar início ou final, causa ou conseqüência. E assim entra em vigor a lei máxima do capitalismo no terceiro mundo: “salve-se quem puder (pagar)”. Tudo com ampla conivência da sociedade e do poder público.
Carteiro, aquele ser inferior que anda a pé
11/10/2006 – 18h36
O banco acima vive fazendo propagandas de marketing social, se diz preocupado com o meio-ambiente e com o futuro da humanidade. Mas a propaganda enviada pelo correio atinge níveis máximos de cretinice.
Como pode você, um ser superior, consumidor, bem-sucedido e bonito andar pela cidade da mesma forma que o carteiro da sua rua?
Para “realizar o seu sonho” de superioridade você tem duas opções: três ou cinco anos de escravidão bancária lhe permitem possuir um veículo poluidor para se diferenciar daquele serviçal que não gasta combustível, não ocupa espaço, não faz barulho e não polui o ar para entregar propagandas de banco, contas de telefone e outros tipos de mala-direta não-solicitadas.
Mas o tal banco é muito preocupado com a sustentabilidade do planeta, por isso confeccionou a propaganda indesejada em papel reciclado… Ah bom…
Transporte de carga
10/10/2006 – 18h42
Dois veículos não poluentes para o transporte de carga: à esquerda, pequenas encomendas; à direita, os grandes responsáveis por evitar o colapso dos lixões da cidade, que transbordam com o excesso de embalagens da sociedade do consumo descartável.
Como diz a plaquinha na carroça, ambos são veículos e têm o direito de circular nas ruas com tranqüilidade e preferência sobre os veículos automotores.
Carro-Rei I
09/10/2006 – 21h10
Entre todos os veículos motorizados, nenhum goza de tanta liberdade quanto o da foto acima. Os carros-forte podem circular em dias de rodízio, não estão sujeitos às restrições de horários e locais para caminhões e podem estacionar em qualquer lugar para carregar os lucros de bancos e grandes redes comerciais.
Enquanto permanecem nas calçadas, além de atrapalhar a passagem de pedestres e deficientes físicos, os carros-forte deixam o motor ligado e lançam uma deliciosa e saudável fumaça de óleo diesel na cara de quem, por vontade ou falta de espaço, se aproxima de sua traseira.
Rotas para ciclistas no Bikely – agora com nomes de ruas
09/10/2006 – 18h08
Recentemente o Google adicionou nomes de ruas aos mapas de várias cidades brasileiras, entre elas São Paulo e Rio de Janeiro.
Agora ficou bem mais fácil utilizar o Bikely, uma poderosa ferramenta colaborativa que ajuda os ciclistas na escolha dos melhores caminhos para os deslocamentos urbanos.
O Bikely utiliza os mapas do Google Maps e permite ao usuário traçar o seu caminho pela cidade e incluir comentários e dicas. As rotas ficam armazenadas e podem ser consultadas e visualizadas por todos os usuários (incluindo os não-cadastrados no serviço).
Aqui você encontra as rotas já criadas por usuários paulistanos.
O Bikely é bem simples de usar, mas fica um aviso: é viciante. Ao traçar uma rota no Bikely, não se esqueça de acrescentar comentários sobre as vias percorridas e dicas de segurança úteis para os outros ciclistas (como locais de trânsito pesado, subidas íngremes, vias esburacadas, etc).
Vale também adicionar informações como pontos turísticos ou locais interessantes que só quem está do lado de fora de um automóvel consegue enxergar.
De encher os olhos
06/10/2006 – 16h35
O garoto em cima da bicicleta aguardava o farol verde antes da faixa de pedestres. Um exemplo para muito marmanjo que “pilota” carro, moto ou bicicleta e costuma ignorar a preferência máxima do pedestre no trânsito.
Quando o farol ficou verde, o motorista no primeiro carro da fila acelerou para virar à direita antes do pequeno ciclista. O garoto não se intimidou: acenando com as mãos, indicou que ia reto e pediu passagem. Afinal, se no lugar de uma bicicleta fosse um caminhão, certamente o motorista pensaria duas vezes antes de fechá-lo. Quando o apressado condutor finalmente deixou de avançar seu veículo para cima da bicicleta, o garoto agradeceu e seguiu pedalando.
Poucos marmanjos têm tamanha presença de espírito e calma para lidar com situações como esta sem perder a cabeça e sem deixar que violem o seu direito de circular com tranquilidade.
Andar de bicicleta em São Paulo exige calma, diálogo, respeito, atenção e cordialidade. Entrar na lógica competitiva e agressiva do trânsito motorizado é, acima de tudo, desperdício de energia. Afinal, o mundo da violência é o mundo do automóvel, que isola as pessoas dentro de bolhas metálicas, impede a convivência, degrada o espaço público, estimula a competição, provoca angústia, raiva, tédio, solidão, obesidade, alienação….
Não cabe? Põe na calçada
06/10/2006 – 0h26
Por trás dos vidros escuros e semi-fechados, uma senhora conversava tranquilamente em um telefone celular. Provavelmente esperava por alugém que tinha ido até a loja “só um instantinho e já voltava”.
Para que dar ré e estacionar como os outros veículos? No mais, o estacionamento correto poderia atrapalhar a saída do carro cinza. E aí a a pobre senhora seria obrigada a mais uma manobra com sua desajeitada carruagem. Melhor não causar tanta confusão no trânsito, afinal, “é só um instantinho”.
Você e o “seu” motor
04/10/2006 – 20h05
Às vezes bate a sensação de que já chegamos ao 1984 de George Orwell e que a novilíngua já é a linguagem corrente. Se analisarmos apenas a publicidade que cerca o automóvel, a sensação vira certeza e não fica difícil entender o que Guy Debord chamou de a “materialização de um conceito de felicidade que o capitalismo desenvolvido tende a divulgar para toda a sociedade”.
O termo “revitalização” é usado para justificar a expulsão dos pobres das regiões centrais de São Paulo, Curitiba e outras cidades ao redor do país.
Também chama-se de “revitalização” o extermínio dos calçadões das regiões centrais e sua consequente abertura para as máquinas. [1], [2], [3], [4] , [Curitiba]
Se o marqueteiro nazista Joseph Goebbles fosse abastecer seu Volkswagen no Brasil em 2006, teria a sensação de missão cumprida.
“Revitalização instantânea para você e seu motor”. O fenômeno de dependência e fusão entre o corpo humano e as máquinas de quatro rodas é tamanho que a frase “você e seu motor” passa despercebida.
Será que a Shell sugere que bebamos petróleo para “revitalizar” a flora intestinal ou fortalecer os músculos do coração? Ou será que já nem percebemos a distinção entre nossos corpos e os produtos que nos cercam?
Situacionistas e o trânsito
03/10/2006 – 17h13
1- O erro de todos os urbanistas é considerar o automóvel individual (e seus subprodutos, como a motocicleta) essencialmente como meio de transporte. A rigor, ele é a principal materialização de um conceito de felicidade que o capitalismo desenvolvido tende a divulgar para toda a sociedade. O automóvel como supremo bem de uma vida alienada e, inseparavelmente, como produto essencial do mercado capitalista está no centro da mesma propaganda global: ouve-se com frequência, este ano, que a prosperidade econômica norte-americana dependerá em breve do êxito do slogan: “Dois carros por família”.
2- O tempo gasto nos transportes, bem como observou Le Corbusier, é um sobre-trabalho que reduz a jornada da vida chamada livre.
3- Precisamos passar do trânsito como suplemento do trabalho ao trânsito como prazer.
4- Querer refazer a arquitetura em função da existência atual, maciça e parasitária dos carros individuais é desolcar os problemas com grave irrealismo. É preciso refazer a arquitetura em função de todo o movimento da sociedade, criticando todos os valores efêmeros, ligados a formas de relações sociais condenadas (a família é a primeira delas).
5- Mesmo que seja possível admitir provisoriamente, num período de transição, a divisão absoluta entre zonas de trabalho e zonas de habitação, será necessário ao menos prever uma terceira esfera: a da vida em si (esfera da liberdade, dos lazeres – a verdade da vida).
Sabe-se que o urbanismo unitário não tem fronteiras; pretende constituir uma unidade total do meio humano no qual as separações do tipo trabalho-lazer e coletivo-vida privada serão dissolvidas. Mas, antes, a ação mínima do urbanismo unitário é o terreno dos jogos estendido a todas as construções desejáveis. Esse terreno terá o grau de complexidade de uma cidade antiga.
6- Não se trata de combater o automóvel como um mal. Sua exagerada concentração nas cidadas é que leva à negação de sua função; É claro que o urbanismo não deve ignorar o automóvel, mas menos ainda aceitá-lo como tema central. Deve trabalhar para o seu enfraquecimento. Em todo caso, pode-se prever sua proibição dentro de certos conjuntos novos assim como em algumas cidades antigas.
7- Quem julga que o automóvel é eterno não pensa, até do mero ponto de vista técnico, nas futuras formas de transporte. Por exemplo, certos modelos de helicóptero individuais que estão agora sendo testados pelo exército dos Estados Unidos encontrar-se-ão ao alcance do público talvez daqui a menos de vinte anos.
8- A ruptura dialética do meio humano em favor dos automóveis (há projetos de aberturas de auto-estradas em Paris que acarretarão a destruição de milhares de moradias, equanto a crise habitacional se agrava cada vez mais) disfarça a própria irracionalidade sob explicações pseudopráticas. Mas sua verdadeira necesidade prática
corresponde a um determinado estado social. Os que julgam os dados do problema permanentes querem, de fato, crer na permanência da sociedade atual.
9- Os urbanistas revolucionários não se preocuparão apenas com a circulação das coisas, nem apenas com homens paralisados num mundo de coisas. Tentarão romper essas cadeias topológicas por meio de uma experimentação de terrenos, para que os homens transitem pela vida autêntica.
Guy-Ernest Debord
IS no. 3, dezembro de 1959
No livro:
Internacional Situacionaista
Apologia da Deriva – Escritos situacionistas sobre a cidade
Paola Berenstein Jacques (organização) / Ed. Casa da Palavra
(dica: Lourdes Zunino, Denir Miranda, Icaro Brito)












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