Nada é perfeito

Eckart e Hili, meus anfitriões em Salzburgo, contaram que os congestionamentos na cidade são frequentes e cada vez maiores. Disseram ainda que os que optam pela bicicleta chegam mais rápido ao destino. Disso eu já sabia morando em São Paulo…Não botei muita fé na história do trânsito, mas depois de alguns dias na cidade vi que a batalha pela convivência pacífica e pela mobilidade sustentável ainda não está vencida em Salzburgo.

Guardadas as proporções, vi ruas congestionadas durante a semana.

No sábado e no domingo, não foram poucos os “boys” (como dizemos aí em São Paulo) que eu vi “apavorando” com suas máquinas barulhentas. Cantadas de pneu, buzinas, arrancadas…

Depois de Munique, fiquei mal acostumado.

Haralt, um dos filhos de Eckart e Hili, me explicou que os idiotas eram turistas que visitavam a região dos lagos e das montanhas vizinhos à cidade. Com a chuva no final de semana, foram todos “tirar chinfra” no centro.

A construção de cidades humanas, onde o automóvel é apenas um meio de transporte (e não uma arma de opressão ou status) leva tempo e depende de múltiplas ações. Uma delas é a punição de quem desrespeita as leis e as normas de convivência.

Nos dias em que os “boys” espantavam o tédio agredindo pessoas com seus motores, também vi policiais atentos. Meus anfitriões contaram que, não raro, quem abusa dos automóveis acaba ao menos levando uma lição de moral dos guardas.

Dividir o espaço

Algumas ciclofaixas em Salzburgo ficam no meio da rua, entre a faixa exclusiva para ônibus e a faixa de automóveis e motos. Outras ficam no canto da pista.A divisão do espaço tem como objetivo dimensionar o fluxo e fazer com que todos circulem com segurança pelas ruas.

Nas principais artérias da cidade, existe uma faixa para os ônibus, uma faixa (pequena) para bicicletas e uma faixa para o transporte individual motorizado. Simples e democrático.

Uma idéia para os nossos rios

Segundo me contaram Eckart e Hili, a luta pela mobilidade sustentável em Salzburgo começou há cerca de 10 anos, quando as autoridades locais perceberam que o crecente número de automóveis estava estrangulando a qualidade de vida na cidade.O prefeito da cidade resolveu estimular o uso de bicicletas e começou a construir ciclovias, ciclofaixas e paraciclos por toda a cidade.

Tá certo, a cidade é minúscula, tem 150 mil habitantes, mas em pouco mais de uma década eles conseguiram dar plenas condições de mobilidade sustentável para todos os seus habitantes. Hoje é possível ir para qualquer canto usando bicicletas com segurança e rapidez.

Uma das idéias que poderia ser copiada no Brasil são estas pontes, construídas ao longo do rio Salzach, que cruza a cidade.

Para evitar cruzamentos, a ciclovia que margeia o rio passa por baixo das pontes (destinadas a automóveis e pedestres), criando uma via expressa para quem usa a bicicleta.

É claro que antes precisaríamos despoluir os nossos rios, mas quem sabe em 15 ou 20 anos a idéia seja viável…

Domingo de sol em Salzburgo

Depois da chuva no primeiro dia, Salzburgo amanheceu com um belo domingo de sol. Resolvi pegar a bicicleta do Eckart e seguir para os limites da cidade.Antes, uma parada em um dos “Rad Self Service” existentes na cidade. O serviço (público, gratuito e livre de propaganda) tem algumas ferramentas para que o próprio ciclista realize os consertos mais simples em sua bicicleta.

Pneus calibrados, lá vamos nós.

Essa é uma estrada de terra exclusiva para pedestres e ciclistas, uma espécie de parque linear para passeio e transporte.

Bicicleta não tem idade.

Depois de meia hora pedalando, o presente foi esse daí. Ao fundo, o castelo de Salzburgo, que fica em uma colina bem no meio da cidade.

Meu veículo em Salzburgo

No final de semana, o Eckart, um advogado, casado, com filhos, me emprestou seu veículo para eu dar um rolê pela cidade.Diariamente, Eckart usa a sua magrela para ir até o fórum, atender clientes, fazer compras e passear pela cidade. Como qualquer advogado, professor, juiz, político, estudante ou empresário da cidade…

Salzburgo, Áustria

O trem de Munique até Salzburgo (Áustria) levou pouco mais de duas horas. Viagem tranquila, como toda viagem de trem. Sem solavancos, sem buracos, sem risco de congestionamentos e com tempo certo.Chuva em Salzburgo, tempo cinza, lembranças de Săo Paulo. Depois de alguns minutos entendi porque o guarda-chuva, assim como os chocolates, é um produtos típico da regiăo: chove bastante por causa de umas montanhazinhas que ficam ali do lado, conhecidas como Alpes.

Guarda chuva comprado, fui dar uma volta na cidade.Como em Munique, elas estavam por todos os lados.

Informaçăo sobre o tempo de chegada dos coletivos nas paradas.

Os semáforos de pedestre também estăo praticamente em todas as esquinas. Nos locais onde a abertura năo é automática, estes simpáticos botőes funcionam rapidamente, interrompendo o fluxo de veículos e abrindo o semáforo para os pedestres.Em Săo Paulo, na meia dúzia de esquinas como semáforo de pedestre, vocę aperta esse tipo de botăo e espera, espera, espera….

Muito simpáticas as placas austríacas.

E, claro, eles tem ciclovias e mais ciclovias…

… e todo o centro antigo da cidade é exclusivo para pedestres.

Chegou uma hora que cansei da chuva e resolvi voltar pra casa do Eckart e da Hili, pessoas fantásticas que me receberam de braços abertos.

Desejo de cidades possíves


Parque do Flamengo, RJ – texto e fotos: Gira

Quando a cidade torna-se parque
a avenida repulsa o automóvel
e se enamora das pessoas
Digo a ela que sou indiferente
porque no entorno temos plantas exuberantes
quadras de tênis, futebol e peteca
e o que mais se fizer com coisas voadoras

E digo que nem me importa
que já temos espaço para caminhantes
bicicleteiros e corredeiras
bicho e gente
E que temos encontros e paisagem
e lá atrás o horizonte

Eu digo que ela não me faz a menor falta

Gira, 12 de agosto de 2007

Adeus, Munique…

Foram apenas quatro dias, mas as postagens sobre Munique renderam mais de uma semana. E não à toa: fiquei encantado. A cidade foi o exemplo mais perfeito de tudo aquilo que eu já tinha ouvido sobre a Alemanha, mas também mostrou-se exatamente o contrário de algumas lendas e mitos bastante comuns no Brasil.Do que eu já sabia: as bicicletas têm um espaço fantástico, são muito usadas em toda a cidade, por todas as pessoas. Ciclovias por todos os lados, semáforos específicos, paraciclos, estacionamentos, bicicletas de uso público… Enfim, o verdadeiro paraíso para quem acredita nas possibilidades do melhor veículo já inventado pela espécie humana.

O transporte público é impecável: metrô, bondes e ônibus atuam de maneira interligada, com tarifa única, pontualidade de horários, informação sobre itinerários, limpeza interna e faixas exclusivas para o tráfego dos coletivos.

Em São Paulo, a “cidade que não dorme” só existe para quem tem um carro. Quanto mais longe do centro, menos transporte público tem o paulistano. Mesmo na região central, a diversão na madrugada é só para 30% da população (e olhe lá). Circular em Munique é algo que pode ser feito nas 24 horas do dia, por qualquer pessoa.

Pedestres são valorizados ao extremo: áreas exclusivas na região central, calçadas largas por toda a cidade, semáforos específicos em cada esquina e, principalmente, respeito absoluto nas travessias. Para quem vem de São Paulo, é emocionante atravessar uma rua a qualquer hora do dia e não ser ameaçado.No começo a gente estranha, fica olhando para os dois lados da rua, meio descrente, e até agradece ao motorista que “deixou” a gente atravessar a rua. Em pouco tempo dá pra acosutmar. É tão normal, faz tanto sentido…

Aí vem a revolta, a tristeza de morar em uma cidade onde nem pintar faixas de pedestre as autoridades são capazes, quando muito educar (inclusive com punições) os motoristas para que respeitem a vida.

Aí vem o sentimento de impotência frente a tanta estupidez cotidiana nas ruas de São Paulo, de ver carros buzinando para pedestres nas faixas, de ver a popularização dos vidros escuros anti-humanos (que impedem a comunicação no trânsito e aumentam os riscos de mortes), de ver pedestres correndo amedrontados quando o semáforo fica vermelho, de ver que são raros os que exigem direitos e cumprem obrigações, de ver que a lei da selva é, na verdade, a lei do asfalto.

Do que eu não sabia a respeito dos alemães, ficou a grata surpresa de um povo bastante aberto, receptivo e alegre. A imagem do alemão carrancudo, fechado, que “se acha” é uma generalização estúpida, igual a dizer que brasileiro é vagabundo.Munique é uma cidade do mundo, por onde circulam pessoas de todas as partes, com uma qualidade de vida e um planejamento urbano de dar inveja a qualquer ser humano. É cosmopolita, viva, acolhedora.

É claro que tudo isso tem um preço (cobrado em Euros). Mas quanto do dinheiro público e privado de São Paulo não vai para o ralo, ou melhor, para debaixo para dentro dos tanques e bolsos de alguns poucos?Que a relação geopolítica de exploração entre o primeiro e o terceiro mundo ainda existe e é responsável por muitas de nossas mazelas, é fato. Mas será que não cabe a nós mesmos tomar as rédeas de nossa vida para nos livrarmos da exploração externa e interna?

Distribução de terra, de renda, de oportunidades, do espaço urbano, de diplomas universitários, dos livros, do acesso à cultura, das riquezas… A Alemanha já passou por tudo isso (com duas guerras devastadoras no meio do caminho). No Brasil, seguimos acreditando que construir um Brasil de todos (não apenas no slogan) é “coisa de comunista, anarquista ou baderneiro”, de gente que é contra a ordem e o progresso…Temos medo de enfrentar pra valer as reformas e revoluções pelas quais a Europa já passou há mais de dois séculos e criar outras novas transformações, típicas deste século ou da nossa realidade no sul global.

Somos covardes nas políticas e ações que visam proporcionar melhor qualidade de vida para todos e seguimos acreditando que enriquecimento de alguns faz bem pra todo mundo, que o crescimento da indústria automobilística é motivo de festa e que a queda do risco Brasil significa uma melhoria na vida de todos.

Acabar com o reacionarismo e com a passividade dos povos que habitam o Brasil talvez seja a única forma de teremos algo parecido com Munique em 20, 30 ou até 50 anos.

Enquanto isso não acontece, abençoada seja Munique! E até a próxima!

Sobre pedestres, bicicletas e uso do solo

Esta é uma típica rua de Munique: calçadas com mais de 10 metros de largura e espaço compartilhado entre pedestres e ciclistas.Boa parte das ciclovias de Munique fica em cima da calçada. Talvez sejam duas as razoes:

1) eles têm calçadas (e nao trilhas estreitas e esburacadas para quem não conseguiu comprar um carro);

2) é mais seguro dividir o espaço entre pedestres e ciclistas do que juntar bicicletas e máquinas motorizadas.

Em São Paulo as calçadas têm, quando muito, 2 metros de largura. São demasiado estreitas até para a quantidade de pedestres que nelas circulam.

Talvez por isso a meia dúzia de quilômetros de ciclovias existentes na capital paulista tenha sido construída nos canteiros centrais das avenidas (Sumaré e Faria Lima, por exemplo). Este modelo deve ser repetido em breve na Radial Leste: 12km de ciclovias no canteiro central da avenida, interligando as estações Corinthians-Itaquera e Tatuapé do Metrô.

O grande problema das ciclovias em canteiros centrais é o acesso a elas.

Se, para entrar e sair da ciclovia o cidadão tem que utilizar faixas de pedestre e enfrentar semáforos que ficam quatro minutos abertos para os carros e dez segundos para os transeuntes, a ciclovia não será utilizada.

Além disso, a distância excessiva entre os acessos é outro complicador que geralmente destrói boas idéias e intenções.

Esta é uma vizinhança típica de Munique. Prédios de quatro ou cinco andares, sem porteiros, faxineiros, cercas eletrificadas, cães de guarda, manobristas e segurancas de terno e gravata embaixo de guarda-sóis na calçada.

Além dos carros, a cidade de São Paulo teve o seu espaco devorado a partir da década de 70 pelos condomínios-disneylandia da classe média amedrontada. Piscinas, quadras poliesportivas, jardins, “lounges”, salas de cinema, bosques, guaritas e até shopping centers instalados dentro do edifícios residenciais consomem muito espaco urbano, espalham a cidade.

“Condomínio-clube”, dizem os especuladores, este é o nome do conceito que move a classe média e a pequena elite paulistana neste novo século. “Faca tudo sem sair de casa”. Afinal, o trânsito de é infernal, não é mesmo?

À distância (de tempo e espaco), São Paulo realmente parece uma cidade crônicamente inviável. Ou resgatamos todas as quadras e demais áreas privativas dos condomínios e as devolvemos ao uso público, ou jamais teremos espaco para construir ciclovias, calcadas, parques e praças…

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