Enfim, o transporte público aparece na quarta dica. Apesar do começo tenebroso, a revista fala sobre a necessidade de ampliação dos corredores de ônibus, de multar automóveis que circulam pelas faixas exclusivas e de modernizar os trens da CPTM.
Mas o bom senso durou pouco. Em seguida, uma sugestão lamentável para favorecer o uso do transporte público: construir garagens nas estações de trem para que o paulistano da periferia deixe o carro e siga de transporte coletivo até o centro. Ainda bem que o governo do Estado entende que a instalação de bicicletários é uma alternativa muito mais barata, eficiente e sustentável de integração dos bairros mais distantes com as regiões centrais.
A reportagem segue: multar mais é a quinta dica. A receita obtida com as multas teria, segundo a revista, um “efeito colateral”: o aumento no caixa da CET. Ué, mas a CET não é o órgão responsável pelo trânsito na capital? Explica-se: desde que a revista acabou, lá pelos anos 90, suas reportagens fazem a defesa incondional do Estado mínimo, da privatização de todos os serviços públicos. Dinheiro nos cofres públicos, para a Veja, é mau sinal.
E o que fazer com o montante arrecadado nas autuações? Construir um sistema cicloviário? Investir em transporte público ou em campanhas de educação? É claro que não. Seg
undo a Veja, o montante deve ser investido no controle do tráfego, alimentando a roda da fortuna: quanto mais automóveis circulando, mais recursos públicos gastos para permitir a circulação de mais automóveis.
Sobre as campanhas de educação, a revista destaca apenas um projeto entre tantos outros existentes e possíveis. Diz ainda que a CET recusou o tal projeto, apresentado há dois anos, e que o órgão gasta R$3 milhões em publicidade em 2006, valor superior aos R$500 mil da inciativa propagandeada.
Duas outras dicas trazem novamente a panacéia tecnológica como salvação para o caos. Pedágio nas regiões centrais, ao custo de R$250 milhões e controle automatizado de tráfego, pela bagatela de R$320 milhões.
“Metropoles do mundo todo perceberam que a única saída é administrar melhor o espaço disponível, investindo em tecnologia”.
O que as grandes metrópoles do mundo descobriram é a necessidade de restringir o espaço devorado pelos carros particulares. Nos EUA, 43% da área das cidades é ocupada pelos automóveis. A última cidade a adotar uma medida de impacto foi Sevilha (Espanha), que pretende proibir o trânsito de veículos particulares em todo o centro histórico.
A revista sugere ainda retirar de circulação os carros em más condições. Uma frase resume o raciocínio: “Esses carros atrapalham o trânsito, contaminam o ar e ainda podem causar acidentes”. É óbvio que vistorias permanentes e a renovação da frota são medidas necessárias, mas vale lembrar que, por princípio, todos os carros atrapalham o trânsito, contaminam o ar e causam acidentes.
O gran finale fica pela restrição aos caminhões, outro absurdo do privilégio individualista propagado pela revista. Ao contrário dos automóveis, os veículos de abastecimento desempenham função pública, alimentando o comércio e os setores de serviços. Para a Veja, os caminhões só devem circular durante a madrugada. Melhor atrapalhar o sono dos vizinhos do que o fluxo de automóveis.
Um amigo que tentou comentar a matéria através do site da Veja foi atropelado, literalmente, por um carro em sua tela. “Desisti, foi demais pra mim”, comentou e mandou a foto.