A privatização do silêncio

Angústia, raiva e solidão


(foto: João Lacerda / Transporte Ativo)
“Hoje de manhã, por volta de 10 horas, eu e um amigo pedalávamos tranquilamente pela engarrafada rua Pinheiro Machado quando um taxista num Santana buzinou. Embora o tráfego estivesse parado logo à frente, o motorista forçou passagem.

Ao emparelhar, meu amigo sacou a máquina fotográfica e conseguiu o retrato da ‘gentileza’ e da noção de espaço público nas ruas do Rio de Janeiro.”

Motoristas apressados para chegar até o próximo ponto de congestionamento ou ao semáforo seguinte não são exclusividade carioca, como no relato acima. Em São Paulo, o desespero transformado em agressividade também se manifesta em cada esquina.

Ainda que a fantasia publicitária venda o exato oposto, dirigir na cidade consiste basicamente em andar e parar a cada 2 ou 3 minutos. Acelera, primeira, segunda, terceira, reduz e freia. Acelera, primeira, segunda. Buzina. Freia. Acelera, primeira, segunda…

Quanto mais agressivos e mal educados são os motoristas e quanto mais potentes, agressivos e numerosos são os automóveis, mais controle é necessário, mais semáforos, mais radares, mais lombadas… Infelizmente o motorista não constuma entender essa fator elementar da física, o movimento de corpos em um espaço finito.

Hipoteticamente, se todos os motoristas no final da tarde andassem a 20km/h (média de velocidade no horário) ninguém ficaria parado, ou seja, não haveria congestionamento. Talvez, com velocidades mais reduzidas, também não fossem necessários os semáforos, lombadas e radares…


(reprodução: desenho Motormania, de 1950, Walt Disney)
– Mas como?! Eu comprei esse carro porque ele vai de 0 a 100 em meio segundo, porque ele me permite conquistar mulheres lindas, porque com ele eu sou rico, bonito, veloz, ágil, poderoso, livre…

– Eu juro que vi, tava lá no comercial, o carro sozinho na rua debaixo do céu azul, como você me diz que eu não posso exercer tudo isso que eu comprei, como eu não posso andar a 180km/h?

– A culpa é desse idiota que está na frente, que não sabe dirigir [buzina]. Tinha que ser mulher mesmo. Vai pilotar fogão, sua $@%#! [buzina]

– Ô velho maldito que demora pra atravessar a rua. [buzina rápida] Não tá vendo que o sinal já fechou pra você?! Acelera o passo e sai logo da frente! Quer morrer, é?! [acelera com raiva, cantando o pneu]

– Esse país não tem jeito mesmo, quanta miséria. E aí ficam esses pobres puxando carroças no meio da avenida Paulista, que coisa mais atrasada, pega mal pra cidade, pro turismo, afeta o “risco país”… A prefeitura devia mesmo limpar essa gente; privatizar logo a reciclagem de lixo e tirar esses malditos pobres que puxam carroças e ficam atrapalhando o trânsito. [buzina]

– Que porra é essa, uma bicicleta?! [buzina] Vai pra calçada, %$#@! [buzina] Folgado, não não paga IPVA e fica aí no meio da rua atrapalhando o trânsito, andando a 20km/h!

Massa à italiana

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=gyjN_Hrg4P4]
Delicioso o vídeo da massa crítica de maio na cidade italiana de Lecce.

E a próxima sexta-feira (29) é a última de junho, dia de celebrar o transporte sustentável e a convivência pacífica no espaço público nos encontros de massa crítica. Dia de bicicletada. Confirmadas até agora: São Paulo, Fortaleza e Mossoró.

Suportes alternativos para a arte

Do blogue Salão do Pára-Brisa:

Os coletivos brasileiros Poro + Pão com Durex (MG), GIA (BA), EIA (SP), Entretantos (ES), Interatividade (CE), Grupo Empreza (GO), ArRUAssa (PA), Deambulações Periféricas (SC) , Êxito d´rua (PE) e Grupo Madeirista (RO), convidam todos cidadãos, estudantes e artistas a criarem trabalhos a serem afixados/deixados/encaixados nos pára-brisas de carros, ônibus, caminhões e caminhonetes estacionados nas ruas, praças e parques das cidades de Belo Horizonte, Salvador, São Paulo, Vitória, Fortaleza, Belém do Pará, Goiânia, Florianópolis, Recife e Porto Velho.

Vale de carro popular a carro de luxo !

A escolha dos veículos que receberão as obras em cada cidade será feita pela equipe formada por quem estiver presente no dia da realização.

O formato sugerido é qualquer formato que seja “compatível” com pára-brisa!!! Pense em trabalhos frente e verso!

Quando e Onde?
Os trabalhos serão colocados (“aplicados”, “expostos”) nos pára-brisas dia 07/07/2007. A data limite para o envio de trabalhos é 02 de julho.

Velozes, furiosos e assassinos

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=BvVVnugmUWM]

Seminário: poluição do ar por veículos

Acontece nesta segunda-feira (25), a partir das 17h, o seminário “Poluição do Ar por Veículos”, promovido pelos institutos de Engenharia e Samuel Murgel Branco e pelo escritório Araújo e Policastro Advogados.

Palestrantes:
– Dr. Paulo Saldiva (Prof. Titular da FMUSP – Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental)
– Dr. Gabriel Murgel Branco (engenheiro, consultor e especialista em Controle de Poluição Veicular),
– Eduardo Jorge Alves Sobrinho (Secretário Municipal do Verde e do Meio Ambiente)

O Instituto de Engenharia fica na rua Dante Pazzanese, 120 (Vila Mariana). Informações: (11) 5574-7766 (r. 220).

Usos para o espaço

São Paulo, qualquer rua, qualquer hora.

Nova Iorque, 1941



Zaragoza, quarta-feira, 22 de maio

Holanda, hora da aula



Canadá, público ou privado?


(Fotos:
2 – streetsblog / 3 – voando alto / 4 – menos um carro / 5 – bike lane diary)

Para não atrapalhar ninguém

(reeditada a partir de sugestão nos comentários)

Ao estacionar sua bicicleta, verifique se ela não irá obstruir a passagem de pedestres e cadeirantes ou o acesso aos equipamentos de mobiliário urbano (lixeiras, caixas de correio, pontos de ônibus, etc).

Na foto acima, o selim abaixado fez com que bicicleta dobrável coubesse debaixo desta caixa de controle semafórico, usando praticamente o mesmo espaço na calçadada que o conjunto de cinco (!!!) postes instalados na saída da faixa de pedestres.

Veja também:

[Usos alternativos para os espaços de estacionamento]

[Usos alternativos para o automóvel]

[Paraciclos em São Paulo]

Sobre a sociedade do automóvel

“A essência do conflito hoje são os carros e as pessoas. (…) Podemos ter uma cidade que é amiga dos carros, ou uma cidade que é amiga das pessoas, não podemos ter ambas”. Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá no bate papo acima.- Horácio Capel, professor catedrático da Universidade de Barcelona, em entrevista à Agência FAPESP:

“Em cidades como São Paulo, Salvador e Porto Alegre há um desprezo muito grande pelos pedestres. E há uma cultura do automóvel particular que não pode continuar. A janela do hotel em que fiquei hospedado está voltada para a avenida Rebouças. Pude ver que na maior parte do dia ela está congestionada. Andei muito em São Paulo e verifiquei problemas muito grandes de mobilidade. Há bons ônibus, mas não existe uma opção decidida pelo transporte público.”

A cidade tem áreas para passear com um valor urbano extraordinário, mas os paulistanos vão a todos os lugares em seus automóveis. Eles perderam o gosto pelo passeio. Há automóveis demais. Fiquei impressionado também com o processo de verticalização. Há locais em que havia uma casa para uma família e agora há um prédio de 30 andares. Vemos ruas inteiras assim. Isso é assombroso, porque em um prédio desses há 120 famílias e pelo menos 80 automóveis. Mas a estrutura da rua é a mesma de quando havia uma família com um automóvel.”

“Tenho a impressão de que os políticos perderam o contato com a realidade social. Eles estão desconectados dos movimentos populares e a participação dos cidadãos no urbanismo é puramente formal. A maneira como se faz o urbanismo deve ser modificada. Os políticos tomam decisões urbanísticas a partir da assessoria de técnicos que acreditam ser donos da verdade por controlar o saber técnico.”

David Duarte Lima, conselheiro da Rodas da Paz, em entrevista ao Jornal do Brasil:

“Quando se aborda o tema da privatização das ruas pelos automóveis, há quem alegue que isso é uma ficção, partindo do princípio de que as pistas de rolamento não estão privatizadas do ponto de vista jurídico. Na prática, contudo, elas foram monopolizadas por um tipo de usuário de veículo. O motorista.”

“O automóvel é útil. Mas é um devorador de espaços que sacrifica as cidades. O automóvel monopoliza, quase por inteiro, o espaço público. E monopoliza, também, os investimentos. O administrador público faz tudo para o automóvel. Quanto ao ciclista e ao pedestre, que se danem. (…) Examine-se a tendência de se adquirir utilitários esportivos de grande porte, como acontece nos Estados Unidos. As pessoas compram esses veículos para protegerem-se e às suas famílias. Os que estão do lado de fora, no entanto, não estão protegidos. E como os utilitários esportivos são grandes e muito pesados, a violência no trânsito aumenta.”

“Há que se empreender a luta política para recuperar os espaços públicos, que foram privatizados pelo transporte motorizado. Há que se mostrar que o espaço público não é do automóvel. É das pessoas.”

Brechócleta e Volta pelo Clima

No próximo sábado (23), o Greenpeace realiza em São Paulo a Volta pelo Clima, uma caminhada/pedalada de conscientização a respeito das mudanças climáticas.O evento, que já aconteceu em outras cidades no último dia 2, foi remarcado na capital paulista por causa da chuva. A volta pelo clima acontece das 9h às 13h, no parque do Ibirapuera (ao lado do museu Afro-Brasileiro).

Também no sábado começa em São Paulo a 3a edição da Brechócleta. No bazar, roupas, peças e acessórios semi-novos e pontas de estoque de algumas lojas e distribuidoras.

A pechincha vai até o dia 30 de junho, de segunda à sexta (das 12h às 22h) e aos finais de semana (das 10h às 16h). Desta vez a Brechócleta acontece na rua Magalhães de Castro, 974 (Butantã, perto da USP). Mais informações com Cibele, por e-mail ou pelo telefone (11) 9616-7686.