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“O Automóvel e a cidade de São Paulo” é o nome de sua pesquisa, que está sendo digitalizada e, em breve, estará disponível para download.
Como a própria autora ressalta na introdução de sua tese, ao comentar com amigos que estudava o automóvel, seus interlocutorers geralmente perguntavam quais eram as propostas dela para melhorar o trânsito de São Paulo. Seu estudo não apresenta soluções para o “problema”, mas já em 1999 ela percebia a “crescente e arrasadora importância do carro particular como meio de transporte”, inclusive como causa fundamental do tal “trânsito”.
Enquanto a versão digital da tese não fica pronta, você pode conferir dois artigos da autora no disco virtual: “Abram alas que eu quero passar” e “O automóvel e o desgaste social”.
“O desenvolvimento simultâneo da indústria automobilística e do capitalismo fica expresso inclusive nos termos utilizados para designar maneiras de organizar a produção (fordismo, pós-fordismo, toyotismo). Foi a necessidade de constituição do sistema automobilístico que boa parte do desenvolvimento industrial e planejamento urbano capacitou-se e direcionou-se. Suas necessidades técnicas impulsionaram a indústria, suas necessidades de espaço e de movimento veloz, como é fato para o caso de São Paulo, redimensionaram o desenho do urbano. O Automóvel, tanto construtor quanto destruidor, encanta o homem.”
“(…) quanto mais o indivíduo quer utilizar o seu carro menos ele consegue. Afinal se todos tiverem um carro e quiserem consumi-lo ao mesmo tempo, concretizando a individualidade, tem-se o estacionamento forçado (a trava). Quanto mais iguais forem os carros maiores serão as tentativas de modificar as aparências tornando cada um único, porém, homogeneamente igual. No caso da trava poderemos considerar como sendo o limite da propriedade privada e no caso da homogeneidade desesperadora como o limite desta sociedade que se transforma crescentemente em espetacular, isto é, puramente voltado para as aparências.”
Poucos entre os presentes não eram estudantes. Será que o resto da população não está preocupada com o aumento acima da inflação que a prefeitura pretende impor ao transporte coletivo? Será que o povo já assumiu seu papel de escravo resignado da democracia midiática, que vota uma vez a cada dois anos e passa o resto do tempo xingando o político eleito? Onde estavam os tais “movimentos sociais”? E os tais “partidos políticos”?
Pouco depos das 18h, os cerca de 800 presentes decidiram sair em marcha pelas ruas centrais. Trajeto combinado em assembléia, festa, panfletagem e conversa nas ruas do centro.
Ao avistar os homens fardados, decidi me afastar. Em primeiro lugar não concordava com a obstrução do terminal, acreditava que a manifestação deveria seguir adiante sem prejudicar os resignados passageiros (que têm a liberdade de pagar tarifas abusivas por um serviço péssimo). Em segundo, minha experiência em manifestações dizia que em pouco tempo aconteceria o que de fato aconteceu.
Não houve conversa, não houve aviso, não houve sequer a tradicional ameaça da tropa enfileirada batendo com os cassetetes nos escudos e avançando para cima da massa. A PM simplesmente disparou aleatoriamente bombas de efeito moral, gás pimenta e lacrimogênio.
Quem já foi em alguma manifestação sabe que estas armas químicas de uso contra civis, apesar do nome, não têm nada de “efeito moral”: provocam náuseas, falta de ar, problemas respiratórios, os estilhaços tiram pedaços da pele e o barulho das explosões pode provocar a perda da audição.
Utilizar um megafone e dizer que todos devem desobstruir o espaço em tantos minutos seria o mais razoável. Dialogar com os manifestantes, perguntar suas razões e até pedir para que saíssem seria possível. Avançar com a tropa protegida por escudos para abrir espaço poderia até ser aceitável, deter os mais exaltados (sem a truculência habitual) também.
Jogar bombas ao léu no meio de um terminal de ônibus cheio é irresponsabilidade digna de regimes ditatoriais. É uma clara demonstração de que a polícia de São Paulo só conhece uma maneira de lidar com manifestações populares: suprimi-las, utilizando amplo arsenal bélico na repressão a rodo de quem está pela frente. Além de manter a ordem para os donos do Estado, desconta a raiva acumulada em pessoas desarmadas e indefesas.
Esta matéria da Folha de São Paulo foi mais além e criou uma teoria conspiratória para explicar a “tática” dos manifestantes. O trecho final da matéria demonstra o quilate da má intenção jornalística:
Em vez disso, muito jovem vestido de preto, camisetas da banda Ramones, correntes na roupa, piercings, punks. Também tinha “zapatistas brasileiros”, que desfilaram com bandeiras vermelhas e pretas, e camisetas enroladas no rosto, para parecer o Subcomandante Marcos, líder do movimento mexicano. “Kassab
, mas que vergonha, essa passagem tá mais cara que a maconha”, protestava um grupinho.
Ah, também tinha os palhaços do “Palhaços pelo Passe Livre”, que defendem a vida sem catracas e a passagem gratuita para todos.”
Muito mais condizente com a realidade foi a cobertura do Estadão. Alguns trechos da reportagem de Fabiano Rampazzo (para assinantes):
“Ontem à noite, após o confronto, a PM declarou que ‘apenas reagiu ao ataque de estudantes mascarados com toucas ninjas, que, com coquetéis molotov, pedaços de madeira e barras de ferro tentavam manter fechados os portões do terminal.’
A reportagem acompanhou a manifestação e o bloqueio ao terminal, mas não viu nem coquetéis molotov nem ‘toucas ninjas’. “
(…)
“Um rapaz deitado foi espancado com golpes de cassetete por quatro policiais ao mesmo tempo. Desesperadas, pessoas que estavam no terminal e nada tinham a ver com o protesto dos jovens gritavam e buscavam algum lugar para se proteger. ‘Eles querem matar todo mundo?’, disse, chorando, a vendedora Ana Lins, que aguardava o ônibus.
A tropa saiu do terminal e seguiu os estudantes, lançando mais bombas. Pedestres, motoristas e lojistas foram atingidos por gás pimenta.”
E o repórter ainda faz um desabafo em outra nota publicada na mesma edição:
“Foi a segunda bomba lançada pela PM que me acertou. O estilhaço que me feriu o ombro serviu, contudo, apenas de antepasto. Mais tarde, na Sé, a um centímetro de meu rosto, um PM, me confundindo com um estudante, disparou um jato de spray de gás pimenta, que me deixou queimando por duas horas. A pergunta é: se eu fosse um estudante, isso seria válido?”
No dia seguinte, um encontro inesperado perto do Ibirapuera. Alguns minutos de conversa e mais dois ciclistas conhecidos da Renata aparecem. Mais alguns minutos de conversa tranformam o caminho pela cidade em um momento de troca de idéias no espaço compartilhado.
Para quem anda de carro, um encontro casual na rua significa, no máximo, uma buzinadinha apressada. Para quem não está preso dentro de uma bolha de quatro rodas é possível contemplar a cidade, se integrar ao espaço e conviver com as pessoas.
Uma hora mais tarde, também perto do Ibirapuera, um exemplo claro dos males provocados pelo uso excessivo do automóvel, inclusive para quem dirige. Em vez do encontro, o ódio; em vez da conversa, o grito; no lugar da convivência, a disputa mesquinha por um lugar na fila do congestionamento.
O Dia Sem Compras surgiu em 1993 por iniciativa do grupo canadense AdBusters, dedicado à anti-propaganda.
“O objetivo é que neste dia, além de não comprar nada, todos façam uma reflexão sobre os impactos sociais e ambientais dos nossos hábitos de consumo. Os atuais padrões de consumo são insustentáveis do ponto de vista ambiental e injustos socialmente, já que a grande maioria da população é privada do consumo de bens e serviços essenciais para uma vida digna.” (IDEC – Instituto de Defesa do Consumidor)
Quanto tem que piorar para começar a melhorar? Até quando o carro vai ser tratado como rei em São Paulo e todas as outras formas de locomoção como de segunda categoria? Quantos anos vai levar até que o estímulo ao transporte público e alternativo deixe de ser factóide de jornal e passe a virar política concreta e efetiva nas ruas?
Quando as autoridades, a mídia e a dita “sociedade” vão perceber que o problema de São Paulo não é o “trânsito”, mas sim o uso excessivo e irracional dos automóveis particulares?
Quem vive em São Paulo nesta época do ano tende a achar que ainda vai piorar muito até começar a melhorar…

(arte: Frente de Luta contra o Aumento)
Para deliberar o que está no topo da mente dos brasileiros, a pergunta era simples: “quando eu digo refrigerante, qual marca vem à sua cabeça”.
Uma das seções da revista se chamava “transporte”. Mas Caloi, Metrô, Shimano, Dahon, Mafersa, Busscar, CPTM ou “minhas pernas” não estavam no páreo. Para os publicitários da Folha, transporte se resume a carro, pneu, caminhão e combustível. Até petróleo tem grife.
Metade das mulheres não se lembrou de nenhuma marca de pneu, caminhão ou combustível. E o topo da mente de 10% delas não está colonizado por nenhuma marca de carro.
Não é à toa que o número de homens mortos no trânsito é muito superior ao de mulheres, em especial se contarmos aqueles que se matam dirigindo de forma irresponsável em altas velocidades.
Pena que uma parcela das mulheres tenha acreditado que “revolução sexual” e “igualdade de gêneros” signifique apenas embarcar no mundo agressivo dos homens para “competir” de igual para igual pelo “sucesso” na vida.