Contra-publicidade: carros e mudanças climáticas


“A catástrofe climática tem marca” / Achim Schröer

Segundo informa o boletim da World Carfree Network, o grupo alemão Bund (“amigos da Terra”) está realizando um concurso de contra-publicidade com o tema “indústria automotiva e as mudanças climáticas”.

A bela coleção de anúncios feitos por ativistas e artistas de várias partes do mundo pode ser vista aqui. Para votar no seu favorito, clique no botãozinho “stimme geben” disponível na página de cada anúncio.

Um prato cheio para quem busca um pouco de realidade e inspiração para combater o mar de ilusões motorizadas. Uma pena que o site esteja inteiro em alemão (eles devem dizer o mesmo de quem escreve em português…).


“A emissão de CO2 move o mundo” / Aleksandar Angelovski

Colonizada e agressiva


(reprodução: anúncio em jornal)

Dois exemplos da propaganda automotiva que movimenta sonhos, promove a segregação, estimula o comportamento agressivo e o excesso de velocidade, criando a ilusão de liberdade e poder que tanto angustia os motoristas nos congestionamentos diários.

No primeiro caso, o símbolo de status é parcelado em 2 anos de suaves prestações. Vale tudo para pertencer à colonizada classe “A”. Nem a placa do veículo é nacional, para evitar que o comprador se imagine dirigindo em São Paulo, uma cidade feia, com um povo mestiço, de cultura inferior, que chega ao ridículo de parcelar a compra de uma geladeira nas casas Bahia.

Abaixo, a agressividade inerente aos monstros urbanos chamados de SUVs também é traduzida pelo slogan que pouco estimula a convivência e o respeito: “Seja o dono da rua”.


(reprodução: anúncio em revista)

Conversa fiada


“Afasta perigo” caseiro no yonkis

O Jornal da Tarde publicou recentemente uma matéria sobre os artigos do Código Nacional de Trânsito que nunca foram cumpridos, entre eles o que determina que o motorista deve reduzir a velocidade e manter distância lateral de 1,5 metros ao ultrapassar um ciclista.

Não há notícia de um motorista que tenha sido punido por cometer tal infração. Segundo um agente da CET entrevistado pelo jornal “é inviável saber a que distância um motorista está quando ultrapassa uma bicicleta”.

Desculpa esfarrapada. Não é preciso régua para saber a diferença entre 1,5 metros e 15 centímetros. Também não é necessário nenhum instrumento científico para autuar um motorista que não dá seta ao fazer conversão ou para aplicar uma multa no motorizado que não dá preferência ao pedestre nas faixas de segurança (não há notícias de punições em nenhum dos casos).

Os órgãos de trânsito não aplicam estas infrações porque sua política ainda é voltada exclusivamente para manter o “bom” andamento do fluxo motorizado. Carro estacionado na rua, recebe multa. Carro na calçada recebe um pedido para ser retirado.

Os agentes da CET são orientados a aplicar multas para as infrações que comprometem o fluxo motorizado, mas ainda não existe preocupação significativa com as infrações que dizem respeito à segurança e cidadania.

Até quando os agentes de trânsito serão gerentes do caos?

Reverter essa orientação é fundamental para a construção de cidades mais humanas, agradáveis e democráticas. E a mudança não passa por técnicas científicas ou instrumentos avançados, mas sim por uma significativa mudança de orientação política, que passe a privilegiar a locomoção de pessoas, não o deslocamento de máquinas.

Bicicletas pelo mundo, seminário em São Paulo


(clique na imagem para ampliá-la)

Na próxima quarta-feira (14), a partir das 14h, acontece o seminário “Um novo olhar sobre a bicicleta e a cidade”, que pretende discutir política cicloviária no Brasil e em São Paulo.

Além do seminário, o Edifício Matarazzo (sede da Prefeitura) também recebe a exposição de fotos “Bicicletas pelo mundo”, organizada pelo Ministério das Cidades. A mostra é gratuita e fica em cartaz entre 14 a 23 de março.

Confira abaixo a programação do seminário:

14h00 – ABERTURA

14h05 – COMPOSIÇÃO DA MESA E FALA DAS AUTORIDADES

José Carlos Xavier – secretário Nacional de Transporte e da Mobilidade Urbana – Semob; 5’ min

José Luiz Portella – secretário de Estado dos Transportes Metropolitanos e presidente da Companhia do Metropolitano de São Paulo – Metrô; (5’ min)

Gilberto Kassab – Prefeito da Cidade de São Paulo (5’min)

14h20 FALAS REPRESENTANTES

Roberto Salvador Scaringela
Presidente da Companhia de Engenharia de Tráfego – CET (5’min)

Eduardo Jorge Martins Alves Sobrinho
Secretário Municipal do Verde e do Meio Ambiente (5’min)

Walter Feldman
Secretário Municipal dos Esportes, Lazer e Recreação (5’min)

Renato Corrêa Baena
Secret. Especial da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida (5’min)

Frederico Victor Moreira Bussinger
Secretário Municipal de Transportes (5’min)

Mara Gabrilli
Vereadora da Cidade de São Paulo (5’min)

Chico Macena
Vereador da Cidade de São Paulo – autor da lei 14.266 que
cria o Sistema Cicloviário do Município de São Paulo (5’ min)

14h55 – PALESTRAS

Renato Boareto
Diretor de Mobilidade Urbana da Semob (30’min)

Laura Lucia Vieira Ceneviva
Coordenadora do Projeto Pró-Ciclista da SVMA (25’min)

Maria Heloisa Leite de Moraes Forjaz
Diretora da Divisão de Lazer e Recreação do Departamento de
Promoções Esportivas, Lazer e Recreação da SEME (30’min)

Bill Presada
Coordenador do Grupo de Trabalho da Bicicleta – Associação
Nacional de Transporte Público (ANTP) (30’min)

16h45 PERGUNTAS / DÚVIDAS 15’min

17h00 ENCERRAMENTO

Dois minutos da sua atenção

(Tóquio, por Chris Jongkind)
A Bentivi Comunicação Multimídia está fazendo um levantamento sobre o ciclismo urbano com a intenção de quantificar as necessidades e os hábitos de todos aqueles que objetivam viver numa cidade com menos tráfego, menos poluição e menos violência.

É rapidinho, para responder, é só clicar aqui.

Álcool para Bush

(carro de ms. Bush / banner: bijari+peetssa / foto: antonio brasiliano / cmi)

[ethanol molotov for yankee target]

8/3 – Dia Internacional da Mulher/Fora Bush na Paulista:
fotos: [1], [2], [3], [4], [5], [6], [7]

[matéria e fotos – CartaMaior]

[vídeo]

9/3 – [fotos]

Bicicletas contra Bush

Sobre praças e propaganda

Praça do Patriarca, propaganda, fevereiro de 2007

Praça do Patriarca, realidade, fevereiro de 2005

Três mortes distintas – a praça de mão única


(fotos: gira-luddista)

Uma praça, para qualquer habitante do planeta Terra, é um local destinado a convivência, se possível arborizado, com bancos para sentar, espaços para crianças, para atividades políticas, para jogar xadrez ou futebol. Enfim, uma praça é um local de encontro entre os seres humanos.

Seres humanos não precisam obedecer mãos de direção para se locomover. Não existem calçadas exclusivas para ida e outras para a volta, nem trilhas de mão única. Um esbarrão em outro pedestre não representa grande transtorno, nem tampouco resulta em ferimentos graves. No máximo, um xingamento.

Já os veículos, em especial os motorizados, representam perigo: são mais pesados e mais velozes que os homens. Por isso são submetidos a regras de circulação. Bicicletas, automóveis, caminhões, motos e ônibus devem obedecer o sentido designado para uma determinada via.

Afinal, qualquer choque envolvendo um veículo tem grande chance de resultar em ferimentos graves ou em um grande aborrecimento. Se um dos veículos for motorizado, a chance de morte aumenta e o aborrecimento pode virar um grande prejuízo ou uma discussão agressiva.

São Paulo, capital do “desenvolvimento” brasileiro, resolveu inovar: criou a primeira praça de mão-única do mundo. Tá lá, no site da prefeitura: “a praça Manuel da Nóbrega terá mão única de direção, da rua XV de Novembro para a rua Boa Vista”.

A praça em questão ligava o calçadão da XV de Novembro a rua Boa Vista. Era um espaço destinado aos pedestres, que não precisavam se preocupar com máquinas, fumaça ou buzinas. No máximo eram obrigados a desviar de uma barraca de camelô ou de outro pedestre. E foi exatamente para tirar os camelôs e adequar a região aos hábitos e vícios de 30% da população que o calçadão foi extinto.

O fechamento do calçadão da XV de Novembro foi o segundo realizado em 2006 na região central. Ao contrário das ruas 24 de Maio e D. José Gaspar, o piso de pedras portuguesas não foi sumariamente coberto com asfalto. A “abertura” consistiu apenas na implantação de sinalização viária e cones fixos para delimitar o tráfego.

Em agosto de 2005 um jornal paulistano chamou o fechamento dos calçadões de “traffic calming”. “Já é assim em países como Itália e Inglaterra, e em Estados americanos, como a Califórnia. O conceito é o do chamado traffic calming. Os motoristas sentem que estão transitando por um lugar no qual a prioridade é do pedestre. Vão devagar, com cuidado – pelo menos é assim no exterior. A velocidade prevista para São Paulo é de 10 a 15 quilômetros por hora.”, dizia a reportagem.

“Traffic calming”, na tradução do inglês, quer dizer “acalmar o trânsito”. O que foi feito nos calçadões paulistanos é exatamente o oposto, ou seja, a implantação do perigoso tráfego de veículos motorizados.

As ações de “traffic calming” são adotadas em locais onde já existe trânsito de veículos para torná-lo mais ameno, não em calçadões ou praças que, por definição, não hospedam máquinas de locomoção.

A ocupação dos calçadões pelos automóveis não é novidade. Antes do fechamento, as máquinas já eram vistas em circulação e estacionadas na região proibida para carros.

A velocidade era baixa, como os 10 ou 15km/h previstos na reportagem de 2005. O limite atual foi estabelecido em 20km/h e os carros, exceto os oficiais ou policiais, continuam a circular devagar.


Um domingo, fevereiro de 2005, rua XV de Novembro.
Na esquina, o prédio da Secretaria Municipal de Transportes.

Textos relacionados:

[Três mortes distintas]

[Aqui ja$ a vida – o fechamento da 24 de Maio]

[Olha o calçadão da 25 de Março! É mentira…]

[Calçadão do mosteiro ao mercado]

[Ação contra os carros no centro]

Olha o calçadão na 25 de Março! É mentira…


carros voltam a roubar espaço de 400 mil pessoas na 25 de Março

O texto no site da Prefeitura, em Outubro de 2006, propagandeava um pequeno grande avanço: a rua 25 de Março, o maior centro de compras a céu aberto da América Latina, seria fechada para os automóveis. Era mentira. Ou melhor, como explicou Andrea Matarazzo, era apenas uma medida em caráter experimental…

Ainda que parcial (das 10h às 18h), o fechamento era uma boa notícia na onda de extermínio dos calçadões promovida no ano passado (24 de Maio, XV de Novembro e Florêncio de Abreu). A medida também parecia demonstrar o mínimo de sensatez: não fazia nenhum sentido o fluxo (e o estacionamento) de automóveis em uma rua estreita por onde passam 400 mil pedestres.

Na época, a abertura da 25 de Março aos pedestres serviu inclusive para justificar o fechamento dos calçadões da XV de Novembro e Florêncio de Abreu – uma espécie de solução para “compensar” a restrição na 25.

A medida também amenizou possíveis críticas à morte da área livre de carros, já que as grandes cidades do mundo seguem exatamente o caminho inverso: a restrição cada vez maior ao automóvel nos centros urbanos.

A mídia corporativa segue repetindo o discurso oficial: trata o fechamento de calçadões como “abertura” e a proibição de veículos como “fechamento”, demonstrando que a orientação das políticas públicas e a reprodução de informações continua a seguir a lógica dos 30% da população (aquela minoria possuidora de automóvel).