Bicicletada: sexta

Sexta-feira (30) tem Bicicletada em São Paulo. A concentração lúdico-educativa começa às 18h, na Praça do Ciclista (av. Paulista, altura do número 2400). Às 19h30, um pedal legal para humanizar o trânsito.

A Bicicletada é uma celebração mensal do transporte não-motorizado e do espaço público que acontece em mais de 200 cidades ao redor do planeta. Inspirada pelo movimento de massa crítica, a Bicicletada é uma iniciativa civil livre e horizontal, que busca promover os meios de transporte não-motorizados e a cidadania.

Pedalamos mensalmente pelo direito de circular com tranqüilidade todos os dias. Celebramos a locomoção inteligente, que não polui o ar, não congestiona as ruas e humaniza a cidade. Trocamos idéias e experiências para consolidar alternativas de locomoção. Ocupamos o espaço público para promover a convivência.

O único requisito é um veículo não-motorizado (bicicleta, patins, skate, patinete, etc). Panfletos, cartazes, alegorias e boas idéias são muito bem-vindos.

Lixo e publicidade

Redundância ou pleonasmo?

Quem anda a pé pela avenida Paulista notou que centenas de lixeiras parecem ter brotado ao longo dos 2,7km de calçadas esburacadas.

A concentração de lixeiras em alguns pontos faz o pedestre suspeitar de alguma experiência antropológica, um estudo para ver se o cidadão joga o lixo no lixo quando a cidade dispõe de estruturas adequadas (ou em excesso).

Segundo a subprefeitura da Sé, o fato não está relacionado com estudos acadêmicos. Com dinheiro público, foram instaladas 200 novas lixeiras de um lote de 5 mil previstas para a região central.


Será que banca de jornal tem braços?

Ainda que a disposição de algumas lixeiras seja duvidosa e muitas vezes, digamos, redundante, a iniciativa seria muito bem-vinda…

Seria, pois uma pulga resiste atrás da orelha quando relacionamos as lixeiras da Paulista com outro projeto de “limpeza” em curso na cidade: o programa “Cidade Limpa”, que visa remover a publicidade em outdoors e (adivinhe) instalá-la apenas no mobiliário urbano da capital.

O programa “Cidade Limpa” tem duas etapas. A primeira, em vigor desde o começo do ano, pretende remover a publicidade exterior de outdoores e fachadas. A segunda, que já começou a ser discutida, irá privatizar todo o mobiliário urbano da capital, oferecendo-o a uma empresa de grande porte (provavelmente a francesa J.C Decaux ou a estadunidense Clear Channel).

Na melhor das hipóteses, uma ou duas gigantes brasileiras do setor conseguirão uma fatia da grande superfície para exibir as criativas “peças” de seus empregados.

Com toda a publicidade restrita ao mobiliário urbano, fica mais fácil entender a razão de 200 lixeiras terem brotado do dia para a noite nos 5,4km de calçadas da avenida mais importante da capital.


(clique nas imagens para ampliá-las)

Cicloviagens

Viajar é bom, todo mundo concorda. Viajar para conhecer, viajar para descansar, viajar por viajar. As razões são diversas, mas tem muita gente por aí rodando o mundo de bicicleta.

Tem a família de agricultores do projeto Ciclovida, que está chegando a São Paulo nos próximos dias para seguir sua jornada de estudo e troca de conhecimentos sobre biomas, sementes, meio ambiente, agricultura e reforma agrária. Eles saíram de Fortaleza em junho de 2006, fizeram um “bate e volta” na Argentina e seguem viagem.

Tem os colegas de Bicicletada, dois Rodrigos, um deles atravessou Cuba na magrela, entre outras viagens pelo mundo. O outro seguiu da Chapada dos Veadeiros até a Chapada Diamantina.

E tem o Romulo, que veio de bike da Califórnia até Niterói, escrevendo, fotografando e publicando as histórias e imagens dos “hermanos de latinoamerica”.

Vale a pena dar uma olhada em todos os sites e, quem sabe, começar a planejar a próxima viagem.

Ruim para quem, cara pálida?

Dizem os mais viajados que coluna social em jornal “sério” é uma aberração tipicamente brasileira, uma expressão “jornalística” de uma certa elite nacional que adora exibir seu charme “nouveau rich” em páginas de fofocas sobre a “high society” da Colônia. Nas Metrópoles, dizem, esse tipo de “jornalismo” fica restrito aos tablóides ou revistas do tipo Caras ou Contigo.

A aberração é unânime: todos os jornais ditos “sérios” possuem uma (ou mais) páginas dedicadas à vida dos ricos, famosos e poderosos. E às vezes é bom dar uma olhada nestas páginas para ver o que pensam as pessoas que andam de helicóptero e adorariam morar em Paris (só não vão porque o custo dos escravos domésticos é muito mais alto naquelas paragens).

Na coluna social do Estadão de 2 de março deste ano, o autor disserta sobre o corredor de ônibus da Rebouças, que facilitou a vida de milhares de pessoas ao tornar o transporte público coletivo rápido e eficiente: “O grande erro inicial foi mexer na Rebouças que, se era péssima, agora virou impraticável. Os motoristas fogem dela e se refugiam tanto em Pinheiros como no Jardim Paulistano. Eta projeto ruim aquele!!! Inoportuno, ineficaz, mal acabado e caro!”. E termina em tom de ameça: “Não vamos esquecer….”.

Projeto “ruim, inoportuno e ineficaz” para quem, cara pálida? Para os motoristas de Pinheiros e do Jardim Paulistano, que possuem mais carros do que gente em suas casas, entopem as ruas da cidade diariamente até para ir à padaria, mas não querem trânsito na porta de suas casas? Ou para as milhares de pessoas que dependem do transporte público ou escolheram se locomover pela cidade de maneira mais inteligente e sustentável do que os esbanjadores que não vivem sem um “valet park”?

Compre-me ou te devoro


(texto e foto retirados do ConsumeHastaMorir)

“Assim a publicidade, amplamente combatida no período anterior e acusada de alienação cultural, encontra-se repentinamente reconsiderada; olha-se com curiosidade e aprecia-se como diversão, até que ela seja convertida em centro narrativo do pós-moderno. Pode-se dizer que os publicitários de hoje substituem os filósofos no papel de guias da sociedade.” (“La era del consumo”, Luis Enrique Alonso. Ed. Siglo XXI, Madrid, 2005).

Bilhete Único privatizado e poluído

Os efeitos da privatização de serviços públicos em países subdesenvolvidos e de democracia precária tendem a ser catastróficos. Desde a criação do Bilhete Único (ainda na gestão de Marta Suplicy), a venda e recarga de cartões na cidade de São Paulo é operada por uma empresa privada.

A Rede Pague Express, que não possui sequer site na internet, é a responsável pela gestão de um mercado que movimenta R$360 milhões por mês.

O Bilhete Único, a integração tarifária e a implantação dos corredores Passa Rápido foram medidas significativas de estímulo ao transporte coletivo na capital implantadas pela gestão petista. Tanto que Marta Suplicy começou a distribuir os cartões (na cor vermelha) em 2004, ano de eleições municipais. A gestão tucana Serra-Kassab logo tratou de mudar a cor do bilhete, lançando a versão azul no meio da eleição presidencial para alavancar a campanha de seu candidato Geraldo Alckmin.

Privatizado, o Bilhete Único não serve apenas como “santinho high-tech” em campanhas eleitorais. Uma fabricante de motos irá imprimir a sua marca em 150 mil cartões da cidade. A estratégia de marketing visa atrair usuários do transporte público para o transporte individual motorizado, seguindo a velha máxima da democracia brasileira: soluções privadas para problemas públicos.

A tal fabricante de motos, em um comercial do modelo que se apresenta como alternativa popular ao “transporte público ruim”, traz o nojento slogan “Numa Honda tudo é ‘pop’, só não é ‘pop’ andar a pé”…

Uma moto polui mais do que um ônibus. Se multiplicarmos a emissão de polentes das motocicletas por 50 (média de passageiros de um coletivo), chegamos a conclusão de que as motocicletas são grandes responsáveis pela poluição na cidade.

É lamentável que a Prefeitura de São Paulo permita a inserção de anúncios de desestímulo ao uso do transporte público no cartão que possibilita as viagens.

É lamentável que a Prefeitura permita o estímulo à poluição sonora e atmosférica no ano em que a consciência ambiental virou ‘pop’. Será que basta pagar alguns tostões para poder inserir anúncios no Bilhete Único dizendo “você ainda anda de ônibus, seu fracassado? Venha poluir usando transporte individual motorizado!”.

Ou será que Prefeitura não se julga responsável pelas ações de empresas que operam concessões públicas? Será que estas são as “regras do jogo” nos países subdesenvolvidos?

De certo, apenas a lembrança de Guy Debord: a moto, nada mais é, do que um subproduto do automóvel. Ela não tem nada a ver com bicicletas, transporte público nem com os pedestres.

Nós mentimos, você compra


“Ford Ecosport: nós mentimos, você compra”

Esta anúncio, que já tinha sido publicado aqui no :.apocalipse motorizado, foi adicionado ao concurso de contra-publicidade alemão promovido pelo Bund. Para votar neste anúncio, clique aqui e depois no botão “stimme geben”, mas vale a pena dar uma olhada antes em todos os participantes.

Infração menor

Estacionar em pontos de ônibus não causa grande constrangimento aos motoristas paulistanos, nem tampouco representa risco de punição rigorosa pelos agentes de trânsito, mais preocupados com o bom (?) andamento do fluxo de veículos particulares.

As áreas delimitadas pela faixa amarela servem para que os ônibus parem junto às calçadas, evitando o bloqueio do trânsito e facilitando o embarque e desembarque de passageiros idosos ou com mobilidade reduzida. Nada que represente motivo de preocupação ao motorista, que julgou mais importante estacionar sua propriedade privada na porta da agência bancária onde permaneceu por mais de 15 minutos.

Recriar a cidade

Alguns chamam de “pichação”, outros acreditam que é uma afronta à ordem e ao progresso (?), a polícia geralmente trata como vandalismo. Intervenção urbana é uma forma de recriar a cidade, de refazê-la livre das amarras do espaço condicionado a manutenção das relações de poder e opressão vigentes (dos carros sobre os pedestres, dos ricos sobre os pobres, dos brancos sobre os negros…). Os dois exemplos são de Curitiba.

Magnatas da cana de açúcar

(ilustração: Ingrid Hanusová /revista carbusters)

“Eu posso ver uma espécie de Guarda Pretoriana sendo formada por gente com dinheiro, imperadores magnatas do petróleo – ou da cana de açúcar?”, Gore Vidal, um estadunidense lúcido em entrevista à Folha de São Paulo.

“O desperdício não faz grandes nações e, nas que já foram ou são grandes, como a Roma Imperial ou os EUA de hoje, ele é um indicador do começo do fim.”, Marc Dourojeanni, em O Eco, sobre o desperdício de comida, raciocínio que pode ser transposto para outros recursos naturais.

“(…) embora políticos incentivem agressivamente o uso do etanol de milho produzido localmente como substituto do petróleo estrangeiro, a conversão faz pouco sentido do ponto de vista energético. Estudos mostram que a produção do etanol de milho cria quase a mesma quantidade de CO2 que a produção da gasolina. A queima do etanol em veículos oferece pouca, se algum, redução da poluição.”, Scientific American, em trecho reproduzido na Carta Capital.


Amazônia em 2020? / foto: Alexandre Severo

A questão em pauta nos próximos anos não deveria ser como arrumar mais energia para manter os atuais padrões de consumo dos países ricos, mas sim como redistribuir a energia existente e buscar fontes limpas para que todos tenham acesso à padrões sustentáveis de vida.

Segundo o Banco Mundial, 15% da população mundial devora metade da energia disponível no planeta. Os EUA, que possuem 4% da população mundial, produzem sozinhos 25% dos gases de efeito estufa no planeta.

Além disso, entre os danos causados pelo automóvel, o aquecimento global é apenas uma pequena parte. O carro cria entraves urbanos de difícil solução, é responsável por uma epidemia de mortes em “acidentes” de trânsito, segrega as pessoas, transforma a cidade em um ambiente hostil, consome recursos (inclusive naturais) para construção de infra-estrutura, estimula a agressividade, promove o sedentarismo…

Substituir a frota estadunidense (ou paulistana) por veículos a álcool não tem nada a ver com preservação ambiental, mas sim com a preservação dos interesses econômicos da indústria automobilística.