Usos alternativos para o automóvel

O largo estreito

O largo São Bento, que nunca foi tão largo, praticamente desapareceu com o fechamento do calçadão da Florêncio de Abreu no final de 2006.

O espaço, que poderia ser usado tanto para a convivência quanto para o deslocamento de pessoas, foi invadido por duas pistas de rolamento, um “valet park” e viaturas da polícia.

O fechamento da Florêncio de Abreu para as pessoas foi a terceira morte de um calçadão executada pela atual administração.

Mesmo antes das obras pró-carro, o largo São Bento já sofria com os abusos de propriedades privadas sobre rodas. A base da Polícia Militar no local não afastava contraventores, que estacionavam tranqüilamente seus veículos sobre o calçadão aos finais de semana.

Outro trecho do largo era (e continua sendo) utilizado pelo valet park da igreja para embarque, desembarque e estacionamento de carros particulares durante casamentos, batizados e afins.

Mesmo com o fechamento do calçadão, não é raro assistir ao fluxo e estacionamento de veículos particulares em outros trechos do largo, como mostra a foto abaixo.


O processo de tirar espaço das pessoas e dedicá-lo aos automóveis vem sendo chamado de “revitalização”. No entanto, trazer vida à região seria construir um calçadão que ligasse o mosteiro de São Bento ao Mercado Municipal.

Ou será que alguns setores da administração municipal e da sociedade só consideram vivos aqueles que consomem?

Eles matam (e ainda fazem piada)


reprodução de anúncio em jornal qualquer
texto com a contribuição de Lilx e Bruno Morino

A cada ano 1 milhão de pessoas morrem no trânsito em todo o planeta. Excessão é o “acidente” fatal que não está relacionado ao excesso de velocidade e ao comportamento irresponsável e agressivo dos “pilotos”.

A indústria automobilística, no entanto, não se mostra muito preocupada com o genocídio e continua a propagandear suas máquinas associadas à potência, status e velocidade. Os exemplos são abundantes.

As tentativas de limitar a apologia à velocidade chegam a ser ridicularizadas pelos fabricantes, como na nova propaganda de um carro da Volkswagen. Confira o diálogo abaixo, extraído do filme promocional que pode ser visto aqui (clique em campanha/comercial).

– Olha o filme ficou lindo, vocês da agência valorizaram bem o design, o câmbio tiptronik, mas tem um problema: o carro ta correndo demais.
– Mas ele corre, ué!

– Mas nós da volkswagen não podemos incentivar isso.
– A gente vai filmar de novo, com o carro mais calminho.
– Ah não precisa, com a computação a gente deixa ele mais lento.
– E fica bom?
– Ooooo!


reprodução de anúncio

Na imagem acima, outro exemplo: “É perigoso lá fora”, diz o slogan deste veículo. Mais correto seria dizer “é perigoso para quem está lá fora”, já que as principais vítimas dos automóveis são pedestres e ciclistas.

Ao longo das décadas a indústria desenvolveu uma série de equipamentos de segurança para quem está do lado de dentro das bolhas (air bags, cintos de segurança, freios ABS, cockpits indestrutíveis…).

O mesmo cuidado com a vida não acontece em relação a quem está do lado de fora. Potência e velocidade são ítens soberbamente valorizados nos automóveis. A mesma velocidade que fascina e vende é aquela que mata e destrói vidas em todo o planeta.

Petrocídio


(mais uma contribuição do Frederico Oliva)

Breves – volta pelo clima, trânsito virtual e cinema

– O colega Welinton Bastos colocou no ar um incrível HD virtual sobre trânsito. Legislação, artigos, vídeos, pesquisas…. Visite e guarde entre os seus favoritos: transito.4shared.com

– No próximo final de semana, o Greenpeace realiza a Volta Pelo Clima em diversas cidades brasileiras. Em São Paulo, a atividade acontece no sábado (02), das 8h às 12h da manhã, no parque do Ibirapuera. Mais informações aqui.

– E nos dias 4 e 6 de junho, por ocasião do Dia Internacional do Meio Ambiente, o Cinusp exibe o vídeo Sociedade do Automóvel na mostra Cinema e Meio Ambiente. As exibições são gratuitas e acontecem às 19h. O Cinusp fica na Cidade Universitária, em São Paulo.

Liberdade é não ficar preso a quatro rodas

(frase sobre foto: Lilx / clique na imagem para ampliá-la)

Os urubus e a carniça

(estímulo à irresponsabilidade em jornal qualquer)

Uma coletânea rápida de notícias da última semana:

– Motorista atropela sete pessoas da mesma família; cinco morrem
– Motorista atropela pedestre na região central de SP
– Atropelamento deixa uma pessoa morta e congestiona a 23 de maio
– Acidentes matam três em estradas de MG
– Morador de rua que dormia sob túnel morre atropelado em SP
– A morte dos super-homens
– Policial rodoviário é atropelado ao ajudar vítima em SP

O uso de automóveis é a principal causa de mortes de crianças e jovens no mundo e a principal causa de óbitos no trânsito paulistano. Os carros tiram a vida de 1 milhão de pessoas a cada ano em todo o planeta.

Será que as atuais campanhas de educação no trânsito adiantam alguma coisa em uma sociedade que não impõe restrições aos automóveis, ou não passam de paliativos e estratégias de marketing para encobrir as razões do genocídio?

Será que a responsabilidade por uma morte no trânsito é apenas do motorista homicida? Ou será que a indústria automobilística e todo o lobby a ela associado também têm uma fatia de culpa ao fabricar máquinas de guerra travestidas de dispositivos de transporte e propagandeá-las como símbolos de poder e liberdade?

Os fabricantes, que vivem barganhando incentivos e benefícios dos governos, não arcam com os custos das mortes, não pagam indenizações às vítimas, não pagam o patrimônio público destruído, o conserto dos carros, a franquia do seguro, o guincho, o tratamento psicológico ou fisioterapeutico dos acidentados…

Mais canalha ainda é a política dos fabricantes em relação aos ítens de segurança, tratados como “opcionais”.

Na terra de Senna, Piquet e Fitipaldi, os “pilotos” nunca acreditam que estarão envolvidos em um “acidente”. Em vez de “optar” pelo freio ABS, preferem um sistema de som “maneiro” para aliviar o tédio das horas que fica parado dentro de seu “possante”.

No entanto, é cada vez mais raro encontrar um paulistano que não conhece alguém que perdeu a vida em um “acidente”.


BMW que “voava baixo” em estrada alemã
(foto: Douglas D. / car-accidents.com)

É muito difícil dirigir um carro seguindo todas as regras de condução segura. A velocidade e a potência dos automóveis são, por natureza, assassinas e de difícil controle. Cabe ao motorista consciente apenas tentar impedir que as bolhas metálicas de duas toneladas manifestem o que lhes é inato.

A tarefa de dirigir com segurança não é fácil. Principalmente no atual quadro de imobilidade das grandes cidades, onde o motorista, em sua máquina que “voa baixo”, não consegue sair do lugar por causa do congestionamento.

A sensação de “anda e para” se traduz geralmente em angústia e raiva contra tudo e contra todos. Assim que o trânsito fica livre, o motorista tende a descontar as horas perdidas “pisando fundo”.

Se somarmos este quadro ao uso livre de celulares ao volante, às películas que escurecem o vidro dificultando a visão, à total ausência de multas por infrações que dizem respeito à segurança de pedestres e ciclistas e à absurda facilidade de tirar uma carteira de habilitação, fica mais fácil compreender as razões das mortes.

Enquanto o urubu que lucra com a carniça continuar a ser visto como o beija-flor que vende liberdade, pouco irá mudar no “genocídio acidental” que varre o planeta.

Demolindo viadutos, construindo parques

Enquanto São Paulo continua gastando fortunas para privilegiar o transporte individual motorizado, construindo pontes e viadutos para ligar um congestionamento ao outro, os exemplos de abertura de espaço urbano para os seres humanos continuam se multiplicando ao redor do planeta.

Em 2002, Seul, capital da Coréia do Sul, mostrou ao mundo que os “Minhocões” não são eternos. Derrubou um viaduto de 8km, desenterrou um rio coberto de asftalto e construiu um parque. Além de melhorar a circulação de pessoas, a obra diminuiu a poluição atmosférica e a temperatura na região.

A notícia, que já havia sido comentada aqui no :.apocalipse motorizado, pode ser vista agora em espanhol neste artigo do site Plataforma Urbana. A informação chegou através do Arriba’ e la chancha.

Fortaleza também tem bicicletada

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=na_Q41ly4UI]

Subdesenvolvimento é isso aí

(fotos: StreetsBlog)

Várias cidades do planeta já perceberam que o automóvel é um dos principais entraves urbanos e humanos deste novo século e têm adotado medidas de restrição a circulação de carros particulares para dar espaço às pessoas.

Em Londres, por exemplo, a prefeitura abriu a Trafalgar Square aos pedestres. A praça, uma das mais famosas da cidade, ainda recebeu um lindo gramado para celebrar a convivência entre as pessoas, a sustentabilidade e o espaço público.

Ao sul do Equador, o subdesenvolvimento predatório segue apostando no automóvel.

Curitiba vai destruir uma praça para “desafogar o trânsito”.

São Paulo promete fechar mais alguns calçadões no centro.

Enquanto Nova Iorque vai investir US$7,5 bilhões para construir mais uma ligação ferroviária com New Jersey* São Paulo continua jogando dinehiro no lixo para tentar aliviar o caos motorizado.


Uma pirâmide? Não, uma ponte para ligar um congestionamento ao outro
(foto: João Luiz Gomes/SECOM – Prefeitura)

Abaixo, algumas pontes e viadutos** em construção na capital:

– viaduto sobre a avenida Águia de Haia (230m de extensão): R$15, 3 milhões
– prolongamento da av. Jacu-Pêssego: R$230 milhões
– viaduto Jaraguá, sobre os trilhos da CPTM (153,5m de extensão): R$11,7 milhões
– complexo Jurubatuba: R$110 milhões
– ponte sobre o Rio Pinheiros (a obra faraônica da foto acima): R$ 233 milhões

Além dos R$490 milhões em pontes e viadutos, outros R$61,7 milhões serão gastos na reforma de sete viadutos:

– viaduto Antonio Abdo (Conselheiro Carrão): R$8,3 milhões
– ponte Engenheiro Roberto Rossi Zuccolo (Cidade Jardim): R$ 23,7 milhões
– elevado do Glicério: R$ 21,7 milhões
– viaduto Alberto Badra: R$ 3,8 milhões
– viaduto João Julião (Beneficência Portuguesa): R$ 4,2 milhões
– viaduto do Café: R$ 7,3 milhões
– viaduto Florêncio de Abreu: R$ 2,5 milhões

Resta torcer para que as idéias do ex-prefeito de Bogotá Antanas Mockus, que passou pela capital paulista nos últimos dias, encontrem eco na administração paulistana.

Afinal, salvo alguns espamos administrativos, lá se vai quase um século de prioridade absoluta ao automóvel em detrimento das pessoas.

* para acessar o site do New York Times, utilize os serviços do Bugmenot
** fonte Diário Oficial do Município, 17 de maio