O mundo está ao contrário e ninguém reparou

Carrocracia explícita, inversão total do bom senso e da lei, escarro oficial na tentativa de construção de cidades humanas, sistema de adestramento  público para a obediência à superioridade das máquinas: a pintura “olhe” com setas apontando para os dois lados é comum nas faixas de pedestre paulistanas.

Na anti-cidade, quem deve é olhar é o pedestre. Se você está a pé, “proteja-se das máquinas”, elas matam. Mas se você tem uma armadura de duas toneladas, em especial aquelas com vidros escuros, acelere, afinal a vida que atravessa na sua frente deve olhar, parar e deixar o seu veículo passar.

A normalização do absurdo é sintoma de uma sociedade doente.

Imagens idílicas de outras paragens ou tempos atrapalham a sua pseudo-calçada inclinada. Não reclame, não questione, não proteste: elas servem aos negócios público-privados e também ajudam a entreter quem abastece de poluição o tanque de sua máquina de duas toneladas para o transporte de 70kg.

E se alguém perguntar, diga que o de baixo é vandalismo, o do meio é propaganda irregular e o de cima é apenas a lei e a ordem…

(clique na imagem para amplia-la, amplie para vomitar)

Afinal, na anti-cidade onde só se escuta o ronco do carro, só se vê o carro e só se fala do carro, propaganda corporativa com dinheiro público travestida de arte e com toques de piada de mau-gosto são coisas normais.

a vaca foi para o brejo – [1][2][3]

20 Comments

  1. Posted 22/02/2010 at 20h15 | Permalink

    Genial.

  2. Posted 23/02/2010 at 10h20 | Permalink

    Excelente essa sequência de posts sobre a anti-cidade. Reflexões importantes. Aquele lance que te falei sobre sair da “bolha” e ver de fora, deixa mais claro ainda o quanto nossa cidade foi usada para interesses excusos. Abração!

  3. Posted 23/02/2010 at 15h07 | Permalink

    Admirável Mundo novo, nós que temos a visão clara somos livres, o condicionamento está em quase tudo, desde uma conversa ouvida no trem sobre a F1, até uma inocente promoção da HotWheels vista de relance, pague 2 leve 3…

  4. Kikavaidemagrela
    Posted 23/02/2010 at 22h41 | Permalink

    É pessoal… o “senta que lá vem históriaaa…” terá que ser “EM PÉ” mesmo pelo visto!
    Pessoal, saudades!
    E, como sempre…ao clicar no APOCALIPSE… tenho mais e mais a certeza de que a CIDADE ESTÁ INFECTA,mas … por outro lado, NÃO estamos sozinhos!
    Thiago,mais uma vez, vc materializou em bom tom tamanho absurdo!

  5. Kikavaidemagrela
    Posted 23/02/2010 at 23h03 | Permalink

    Ah, mais uma coisinha…rss:
    Reparemos que… sempre, sempre…em grandes e também medianos sorteios, o prêmio sempre é um CARRO! Caramba…
    Nem preciso dizer mais nada, né?
    “VIVA, VC ACABA DE GANHAR UM CARRO”!
    Merda.

  6. Posted 24/02/2010 at 12h15 | Permalink

    Quer melhorar o trânsito de sua cidade? Guia fácil em três passos:

    1 – Pegue a cidade que tem o pior trânsito do país.

    2 – Veja como eles abordam a questão e que medidas são tomadas.

    3 – Faça tudo igual.

    1 => ok, é SP, sem dúvida.

    2 => abrir mais e mais avenidas, alargar as existentes, roubar espaço dos pedestres, priorizar os carros em detrimento do transporte público, construir viadutos, trincheiras, realizar fiscalização forte para “facilitar o fluxo (de automóveis)” e fiscalização ZERO para coibir o desrespeito a pedestres e ciclistas… é, acho que é mais ou menos isso.

    3 => É o que Curitiba está fazendo.

  7. Ren
    Posted 02/03/2010 at 18h27 | Permalink

    Mimimi.
    Volta lá pro busão lotado.
    Volta lá pro metrô na Sé às 18hs.
    Mas não sem olhar antes de atravessar as ruas no caminho. Afinal de contas, uma máquina de 2 tons que anda a 50Km/h pode matar alguém de 70 Kg fácil, fácil.
    Se você não quer se encaixar, você tem duas escolhas: e você com certeza sabe quais são :)

  8. Thi
    Posted 10/03/2010 at 13h46 | Permalink

    Nhem.

  9. Arthur Marx
    Posted 11/03/2010 at 4h36 | Permalink

    Ren, vai ver se eu tô lá naquele blog de F1!

  10. Eduardo
    Posted 11/03/2010 at 21h23 | Permalink

    Interessante, fico feliz de ver que tem mais pessoas que usam o termo “armadura de 2 toneladas” e cidade feita para os carros.

    Vendi o meu e vivo de bike, lutando pra uma vida melhor.

    ps: O mesmo edeota que fala “ae volta pro busão, otário, eu vou é andar de carro” é o tipo que vai pra Europa e acha lindo andar de metro depois da balada.

  11. broder
    Posted 31/03/2010 at 13h04 | Permalink

    porra, que idiota. voce nao quer olhar? quer andar que nem um tapado por aí e os carros que se fodam, mesmo que seja impossivel no caso da saída da garagem.

    o objetivo é ninguem morrer atropelado, os dois devem ajudar. tanto que existe o aviso, mas caso voce seja atropelado o culpado é sempre o motorista.
    talvez voce nao tenha tirado a carteira de motorista e por isso nao tenha aprendido isso nas aulas preparatorias, mas o motorista de carro é responsavel pelo pedestre. o de onibus pelo de carro, o de caminhao pelo de onibus em diante.

    é mediocre ver essas pessoas que tomam sua verdade e começam a generalizar tudo de uma forma ridicula. ‘se existe um sinal de OLHE, o motorista nao tem que olhar. só o pedestre’

    pode ficar com a sua logica de gorila, tem gente burra o suficiente para comentar corroborando o que voce disse

  12. Posted 31/03/2010 at 13h27 | Permalink

    Qualquer pessoa que tenha vindo do interior (beeem interior, não Campinas), ou da Europa, percebeu que está ao contrário. Aliás, Tião Carreiro e Pardinho falavam isso em 1988: http://letras.terra.com.br/tiao-carreiro-e-pardinho/48895/

  13. Pois é....
    Posted 31/03/2010 at 13h44 | Permalink

    Oras, se a maioria da população gostasse de comer merda, teria rodizio de merda em cada esquina não acha?

    A cidade é feita para as pessoas, as pessoas gostam de carro. Simples.

  14. Diogo Barioni Abdalla
    Posted 31/03/2010 at 13h47 | Permalink

    Sim, o trânsito de São Paulo é um caos, um horror pra quem anda a pé e mesmo pra quem anda de carro. E já é insustentável.

    Mas e a alternativa? Transporte público nessa cidade é ruim de uma forma tão revoltante, que não é estímulo pra ninguém deixar o carro. Ao contrário: qualquer cidadão que consegue juntar uma graninha compra um carro pra fugir da lotação, insuficiência e má qualidade do transporte público. Quem já viveu atrevessando a cidade todos os dias de busão ou trem sabe o quanto isso é problemático, demorado e deprimente.

    E a bicicleta não é alternativa pro grosso das pessoas, nessa cidade enorme e com relevo dificil.

    Mas andar de carro também a cada dia fica mais difícil, mais demorado, mais perigoso e enervante.

    Solução? Sei lá, fugir da cidade?

  15. augusto
    Posted 31/03/2010 at 13h58 | Permalink

    o ”brother” aí deve ser brother do dourado…
    entendo que o tópico fique limitado a sp… mas o problema é tão real que se projeta a outros veículos. mesmo a ‘politicamente correta’ bicicleta.
    quem acabou por fazer uma interpretação por demás ao pé da letra foi vc, ‘brother’.
    o aviso de ‘olhe’ é claro e justificado. mas sintomático: estamos ficando sem espaço. aqui no rio a coisa tem ficado cada vez piuor pois acham – cada vez mais – que lugar p se andar de bicicleta é a calçada. arrisca-se a integridade de crianças que tem na calçada um espaço que deveria ser seguro e idosos frágeis que podem ter sua osteorporose colocada à prova por um guidão de um ciclista que gosta de praticar slalom com pessoas…
    fique atento ou vc poderá se deparar com um aviso de ”olhe” na saída de seu apartamento.

  16. broder
    Posted 31/03/2010 at 15h29 | Permalink

    augusto,
    não acho que minha interpretacao tenha sido errada. a postura do autor é de um adolescente chorão que grita os (seus) problemas e não dá solução alguma.

    todos sabemos que existe o transito, existe gente que anda de bicicleta, de onibus, etc.. mas o aglomerado é gigante. é assim, nao da pra destruir tudo ou priorizar a parcela infima da populacao que utiliza a bicicleta como meio de transporte.

    ‘Na anti-cidade, quem deve é olhar é o pedestre. Se você está a pé, “proteja-se das máquinas”, elas matam. Mas se você tem uma armadura de duas toneladas, em especial aquelas com vidros escuros, acelere, afinal a vida que atravessa na sua frente deve olhar, parar e deixar o seu veículo passar.’

    esse tipo de comentário é tipico de um bebê chorão que quer o proprio mundo perfeito. eu gostaria esse rapaz fosse presidente por um dia e aplicasse para a sociedade o que acha certo, seria o maior caos urbano da história mundial mas pelo menos esses ecochatos (e cegos) aprenderiam alguma coisa

  17. Posted 31/03/2010 at 23h22 | Permalink

    Broder, obrigado pelo seu voto, mas declino o convite para a canidatura: não é a minha praia. E jamais seria um tirano acreditando que a minha vontade deveria ser algo a ser aplicado imediatamente ao mundo. A democracia é um pouco mais complexa que isso.

    A missão aqui não é necessariamente apontar as soluções (ainda que elas estejam presentes em diveros textos e “articulações” do blog), mas sim despertar para o problema. Acredito que uma parte da solução de qualquer questão seja detectar o problema.

    Nossa sociedade continua cega para o impacto avassalador do uso excessível de automóveis. Continuamos acreditando que pontes, viadutos e reduções de IPI são “bons” e que vão “resolver o trânsito”. Continuamos acreditando que carros significam poder, status, velocidade… Continuamos acreditando que todo mundo pode ter um carro, que existe espaço e recursos para isso.

    O “Olhe” nas faixas que tanto te incomoda é um contra-senso. A lei brasileira (e o bom senso da convivência) diz(em) que é o motorista que deve zelar pelo pedestre. Ao estamparmos o contrário nas ruas (e fazermos com que o pedestre “tenha medo” e se preocupe com os carros), estamos aprofundando essa inversão, ou seja, cavando mais fundo o buraco. Lembro: enquanto o “olhe” está lá na faixa, não há nada que lembre o motorista de sua responsabilidade de olhar para ver se pedestres querem atravessar.

    O “olhe” deveria estar virado para o motorista. É ele, em primeiro lugar, quem deve olhar para ver se vem algum pedestre. E se vem, deve parar e esperar a travessia. Isso funciona em boa parte do mundo chamado “civilizado”. Nós seguimos na barbárie, na lei do mais forte, da selva…

    Ninguém aqui está sendo naif o suficiente de propor que pedestres atravessem sem olhar para os, apenas apontando a inversão de valores, o estado de guerra e terror que vivemos nas ruas da cidade. E estimulando o pedestre a reclamar o seu direito de atravessar a rua e fazer com que o carro pare para a sua travessia.

    Obrigado pelo elogio quanto à “adolescência” do autor. Acredito mesmo que o mundo precisa das novas gerações com sua rebeldia (às vezes inconsequente, mas sempre transformadora) para trazer novos valores e alterar a sociedade.

    Como falei, esse não é um espaço de textos teóricos sobre a construção de políticas públicas ou soluções para todos os problemas. Existem (ou deveriam existir) outros espaços para isso e eu costumo participar de alguns deles como cidadão (não como autor). E você, participa de alguma discussão pública, de algum movimento, de reuniões, audiências ou grupo na sua cidade?

    Seria por demais egocêntrico e “adolescente” acreditar que as minhas soluções são as corretas. Isso aqui é apenas um blog, não um caderno de boas práticas urbanas.

    Prefiro apenas apresentar o que vejo de “estranho” nas ruas dessa cidade devorada pelo automóvel. Uma perspectiva que você tem todo o direito de não concordar. Apenas entenda: isso aqui tem como objetivo apenas o despertar dos entorpecidos para outros olhares. Ou você já tinha se dado conta que o “olhe” na faixa de pedestres é um contra-senso legal e urbano (imputar ao pedestre uma responsabilidade que não deve ser dele, enquanto nada chama a atenção do motorista para o oposto)? Aliás, você já tinha visto que muitas faixas de pedestre possuem esse “olhe”?

    Não é objetivo também priorizar a ínfima parcela da sociedade que usa bicicleta como meio de transporte. Mas por ser um usuário da mesma, vejo que ainda somos invisíveis perante à sociedade e gosto de chamar a atenção para as possibilidades transformadoras de inclui-la na paisagem urbana. Não para que todo mundo ande de bicicelta, mas sim para que todos que gostariam de andar possam fazê-lo com segurança.

    Utópico? Certamente. Mas o que seria da humanidade sem o sonho e sem a utopia? Se você procura discussões tecnicas e “cientificamente” embasadas, procure outros lugares na internet: não é essa a proposta aqui. Ainda que o debate que às vezes surge nos comentários seja bastante útil e interessante.

    Por fim, fica a dica: participe de algo na sua cidade, pode até ser reunião de condomínio (já é um começo). O mundo precisa das suas opiniões e da sua energia transformadora. Ajude a construir um “meio ambiente” melhor para você e para os seus filhos, porque achar que ecologia é apenas o macaquinho na floresta ou a foca no gelo já está meio “demodê” até para os neocons dos EUA.

    um abraço

  18. Ren
    Posted 01/04/2010 at 11h44 | Permalink

    Eu nunca saí de SP. Quanto menos ir à Europa. Se você já foi à Europa e conhece os tipos de lá, bom pra você. Eu trabalho (de ônibus) desde os 14 anos e de carro apenas há 2 anos.

    Não volto pro ônibus/metrô por opção NEM FODENDO, porque o conforto do meu carro é melhor, então por favor saia da frente como eu saía antes de ter carro, assim eu não preciso matar você e fazer sua mamãe chorar.

    Seja realista, não chorão. Apenas despertar para o problema sem apresentar soluções (porque quem precisa MESMO do problema resolvido apresenta idéias para solucioná-lo logo de cara!) é pra quem tem tempo de sobra. Aproveite o seu!

  19. Posted 01/04/2010 at 13h10 | Permalink

    Ren, muita paz pra você também.

    E que nenhum dos seus familiares ou amigos encontre alguém com um pensamento tão destrutivo e egoísta como o seu quando estiver atravessando uma rua, em cima de uma bicicleta ou mesmo dentro de um veículo.

    E como meu tempo é escasso e não constumo passar muito tempo conversando com pedras, desejo uma boa páscoa e muito cuidado nas ruas no feriado: tá cheio de gente louca e disposta a matar os seus semelhantes por achar que o mundo é seu próprio umbigo.

  20. alexandre pontes ferreira
    Posted 13/03/2011 at 13h24 | Permalink

    Vemos hoje, mais importancia do carro do que o alimento. Pessoas orgulhosas de seus veículos envenenados,esquecem-se de que o planeta respira fumaça em troca da vaidade humana. Somos todos idiotas tão pequenos que nem percebemos que temos um mundo pela frente para ser explorado devagar, tranquilo. Vendo aqueles carros boinhando no Japão, percebo que tudo vai mudar, as prrioridades terão de ser reavaliadas no mundo.

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