sábado de carro

Não é exagero afirmar que a indústria automobilística paga as tiragens dos três maiores jornais paulistas aos finais de semana.

Folha, Estado e JT trazem encartados nas edições de sábado cadernos especiais de 8 páginas com anúncios de três montadoras.

Se somarmos o dinheiro arrecadado pelos jornais com classificados e demais anúncios de carros publicados fora dos cadernos especiais, talvez seja válido dizer que o lobby automobilístico é responsável indireto pelo pagamento também dos salários dos jornalistas, fotógrafos e até da moça do cafezinho aos finais de semana.


(reproduções: anúncio em jornal de sábado)

Na semana passada, o caderno especial da Chevrolet (encartado no Estado de S.Paulo) se chamava “Chevrolet de Cinema”.

Os títulos são auto-explicativos do que se vende e da forma como uma opção de transporte é vendida como necessidade vital e sinônimo de liberdade.

E se você vai ao cinema, deve ter visto nos trailers o anúncio do Golf (nome de esporte chique), uma cópia invertida do filme Forrest Gump. No lugar da longa caminhada pelo mundo, o personagem da publicidade vende o tédio disfarçado de anestesia do ato de dirigir.

Na semana que passou o Conar (conselho de regulamentação publicitária) recomendou que a Fiat retire do ar o comercial de um carro que faz apologia à velocidade. A propaganda da Fiat é recheada por cenas de esportes radicais “para atrair o público jovem”. Não foi o primeiro abuso, nem será o último.Há dez anos, quem usava saltos de para-quedas em seus anúncios era a indústria tabagista. Os comerciais de cigarro foram proibidos.

As populações mundiais têm o direito de saber sobre a natureza danosa destes produtos, responsáveis por uma das maiores epidemias de saúde pública do mundo, que mata a cada ano 1,2 milhão de pessoas em todo o mundo, sem falar na destruição ambiental (vendida com selinho do IBAMA) ou nos inúmeros transtornos ambientais decorrentes do uso destes produtos.

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4 Comments

  1. FAbio N
    Posted 29/04/2007 at 0h46 | Permalink

    Luddista, se você puder colocar algumas propagandas de cigarro antigas, acho que ilustraria bem as semelhanças entre o absurdo que era com cigarro e o absurdo que as propagandas atuais de carros são.

  2. Marcelo
    Posted 29/04/2007 at 2h38 | Permalink

    O último anúncio mostrado é o maior contra-senso: substituíram “a vida” por “carro”!

  3. Anonymous
    Posted 29/04/2007 at 6h29 | Permalink

    não só a indústria automobilistica , mas quem também financia as tiragens dos jornais é a especulação imobiliária, com seus enormes anúncios que nos fazem procurar as notícias no meio das propagandas…..

  4. polly
    Posted 29/04/2007 at 14h54 | Permalink

    e esses mesmos jornais ainda insistem em se dizer imparciais, isentos… defensores do “povo”, da “verdade”, do “bem comum”… aiai! é pra rir ou pra chorar?!?

5 Trackbacks

  1. […] anúncio de montadora em caderno especial de jornal. Abaixo, artigo de Denir Mendes Miranda, conselheiro da Rodas da Paz, publicado no Correio […]

  2. […] Quando se trata de bicicleta como meio de transporte, o habitual é ver a imprensa patinar ou divulgar informações distorcidas. É só dar uma espiada nos posts que eu publico aqui sob a tag imprensa viciada. Muitos cicloativistas acreditam que isso ocorra porque o principal patrocinador da mídia tradicional é a indústria automobilística – é só ver a porcentagem de anúncios de TV e revista que advém do automóvel e seus derivados (seguros, serviços, equipamentos e etc.). Por isso, os órgãos de imprensa seriam contidos em suas declarações, preservando a imagem do uso do automóvel para não contrariar quem paga suas contas. […]

  3. […] O terceiro título também pode ser interpretado de duas formas. A mim, me pareceu uma reclamação, do tipo “poxa, que chato, 50% das famílias continuam sem carro”. Novamente, pode ter sido apenas falta de prática de quem escreveu os títulos, mas é o tipo de coisa que me incomoda e muito nesse jornal. Mesmo que não seja a intenção, fica a impressão de que o objetivo é moldar o entendimento do leitor para bater com a do jornalista, do editor ou, pior, dos anunciantes.   […]

  4. By + Vá de bike! + on 19/06/2009 at 18h41

    Para o Estadão, o que importa no protesto da USP é o efeito no “trânsito”…

    A primeira página e as capas de três dos seis cadernos do Estadão de hoje exibiam propaganda de carro. Sem contar os diversos anúncios dentro dos cadernos.
    Imagem: Reprodução

    Na primeira página do Estadão de hoje, o que se vê ……

  5. […] O terceiro título também pode ser interpretado de duas formas. A mim, me pareceu uma reclamação, do tipo “poxa, que chato, 50% das famílias continuam sem carro”. Novamente, pode ter sido apenas falta de prática de quem escreveu os títulos, mas é o tipo de coisa que me incomoda e muito nesse jornal. Mesmo que não seja a intenção, fica a impressão de que o objetivo é moldar o entendimento do leitor para bater com a do jornalista, do editor ou, pior, dos anunciantes. […]

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