Pirataria ou difusão cultural?

Uma das grandes possibilidades apresentadas pelas redes de compartilhamento de arquivos na internet é o acesso a produções independentes ou que foram relegadas pelos cartéis de distribuição e exibição de filmes que dominam o Ocidente.

Na era do blockbuster e da colonização de corações e mentes como arma de guerra, ter acesso ao que não interessa aos cartéis de Hollywood (ou às suas embaixadas de censura estética) é o grande potencial humano da chamada “pirataria”.

Como exemplo fica a dica do filme “La Bicicleta”, do espanhol Sigfrid Monleón, que dificilmente será lançado no Brasil. O filme foi recentemente disponibilizado em torrent, mas provavelmente pode ser encontrado em outras redes P2P.

Dois avisos importantes:
1) pirataria é crime
2) impedir a diversidade cultural para manter monopólios econômicos e estéticos também

[trailer de La Bicicleta no Youtube]

[resenha em espanhol]

[link para download do filme em torrent]

Dicas aleatórias de filmes que não estão disponíveis no Brasil e podem ser encontradas através da rede de torrents:

The Yes Men – documentário sobre dois figuras que se passam por executivos da Organização Mundial do Comércio, fazem seminários e chegam até a dar entrevista à BBC em nome da entidade.

El Topo / The Holy Mountain – filmes do chileno Alejandro Jorodorowsky, tirados de circulação pelos produtores

Israeli Wall Must Fall – filme israelense sobre a resistência palestina e internacional na cidade de Bil’in contra o muro de Israel. Também disponível no Google Video.

E vale visitar também o opensubtitles.org, um ótimo site de legendas em vários idiomas.

Sistema cicloviário: agora é lei em São Paulo

(arte sobre arte de pedalero e Nathan)

O prefeito Gilberto Kassab sancionou ontem (06) o projeto de lei 599-05, que havia sido aprovado pela Câmara Municipal no final de 2006, criando o Sistema Cicloviário municipal.

A lei 14.266 prevê a criação de estruturas para deslocamento (ciclovias, ciclofaixas, rotas operacionais e faixas compartilhadas) e estacionamento (bicicletários e paraciclos) de bicicletas.

Segundo o texto, publicado hoje no Diário Oficial, a consolidação do Sistema Cicloviário cabe ao Executivo Municipal. Desde maio de 2006 existe um Grupo Executivo chamado Pró-Ciclista, que congrega técnicos e representantes dos vários órgãos municipais para desenvolver e implantar de melhorias cicloviárias na capital.

O Pró-Ciclista, capitaneado pela Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, já desenvolveu algumas ações neste sentido. Em 2006 foram investidos R$700 mil em projetos e obras na capital.

Os tão esperados paraciclos devem começar a ser instalados em breve. A Secretaria do Verde e do Meio Ambiente já realizou licitação e deverá entregar os primeiros 1000 equipamentos no prazo de 30 dias. Os primeiros paraciclos serão instalados nos parques municipais e em locais indicados pelas subprefeituras, CET, Secretaria de Esportes e outros órgãos.

A outra obra realizada a partir das indicações do Pró-Ciclista foi a sinalização da Ciclovia da Estrada da Colônia (com 2,15km de extensão).

Segundo o Pró-Ciclista, estão em andamento na cidade outros projetos e estudos para melhorar os deslocamentos por bicicleta:

– conclusão dos estudos para ciclovias ligando o centro de Parelheiros aos centros de Colônia e Embura (no extremo sul da capital), com extensão de 5,35km;

– licitação (em andamento) para a instalação de bicicletário com 300 vagas junto ao Terminal Parelheiros;

– previsão de início das obras de extensão em 2,2km da Ciclovia da Estrada de Colônia em 2007;

– continuidade ao projeto iniciado em 2006 para aimplantação de ciclovia ou ciclofaixa na Avenida Inajar de Souza, que terá 6,3km de extensão;

– início do projeto de implantação de 3km de ciclovia ao longo do Córrego Itaim, no bairro do Itaim Paulista, permitindo conexão com a estação da CPTM. O Pró-Ciclista deve elaborar e implantar o projeto ainda em 2007.

– estudos para melhoramento cicloviário nos bairros do Morumbi, Vila Sônia, Previdência e Cidade Universitária. Os estudos, realizados em parceria pela CET e pelo ITDP, foram iniciados em novembro de 2006 e serão concluídos em 90 dias. A obra será realizada pela Prefeitura.

– projeto de sinalização para tráfego compartilhado, ciclovia ou ciclofaixa em Ermelino Matarazzo a ser elaborado ainda em 2007.

Ossos do ofício

Quem era o paciente do carro estacionado na calçada desta clínica ortopédica?

Um pedestre que se recuperava de um atropelamento?

Uma vítima leve que torceu ou quebrou o pé em uma calçada esburacada?

Um cadeirante que “se arriscou” na rua pois a calçada era estreita?

Um idoso que ousou dar uma volta no bairro?

Um ciclista derrubado por um motorista apressado?

Alguém gravemente ferido em uma colisão automobilística porque o motorista do carro da frente usava engate, aquela peça usada pela maioria dos motoristas como arma contra arranhões na pintura do pára-choque que aumenta exponencialmente a nocividade das colisões traseiras?

O motorista do carro cinza talvez não tenha percebido que aquele espaço era uma calçada.

Ao ver a pintura “espertamente” verde do piso, que igualou o espaço público para pedestres ao espaço do terreno particular destinado ao estacionamento de carros, o motorista deve ter pensado, no máximo, que “ainda tinha espaço” para o pedestre passar.

Talvez os vidros escuros de seu carro em grau acima do permitido tenham dificultado ainda mais a distinção elementar entre público e privado. Ou talvez ele já tenha se esquecido que existem calçadas, idosos, cadeirantes, ciclistas, pedestres, crianças, bairros e praças, passando a acreditar que a cidade é feita apenas de avenidas, faróis, garagens, manobristas e do carro que vai à sua frente.


(reprodução: “Autoschreck”, Roland Schraut)

Uma situação parecida com a registrada em São Paulo foi a gota d’água para o alemão Michael Hartman. Ele, que já não era um “amante dos roncos de motores”, ficou absolutamente indignado quando uma BMW estacionada em cima da calçada (que era também ciclovia) provocou a morte de uma criança que seguia de bicicleta na garupa da mãe.

A pequena Silvia foi morta quando o motorista da BMW em local proibido abriu a porta do carro, acertando a roda traseira da bicicleta e jogando mãe e filha para o meio da rua. Uma van atingiu a bicicleta e matou a criança na hora.


(reprodução: “Autoschreck”, Roland Schraut)

Adepto da não-violência, Hartman começou contestar os abusos cotidianos com calma e inteligência. “Passo sobre carros, não por cima de seres humanos como eles fazem”.

Em outro trecho, Hartman demonstra a fúria automobilista quando o “troco” é dado na mesma moeda. Ao caminhar ou ficar parado no meio de ruas, desperta a ira dos motoristas, que buzinam e chegam a agredi-lo pois estava “atrapalhando a passagem”.

Vale lembrar que o filme se passa na Alemanha, em 1994. Ou seja, uma agressão física no filme deve ser equivalente a ser morto com um tiro na São Paulo deste início de século.

O vídeo Autoschreck, de Roland Schraut, conta a história da batalha de Hartman por ruas mais humanas. Disponível apenas em inglês.

Dia Sem Carro de verdade


(campanha “La Calle Inteligente”, da Función Ciudad Humana)

Amanhã, a partir das 6h30 da manhã, nenhum veículo particular poderá circular pelas ruas da cidade.

Para 75% dos paulistanos, será um dia completamente normal, já que o transporte público é seu meio habitual de locomoção. Será inclusive um dia melhor, já que a ausência de carros diminuirá o tempo de seus deslocamentos.

Imagine esta notícia na Folha de São Paulo… Impossível? Pois em Bogotá (Colômbia), a informação não apenas estava em um grande jornal, como era verdade. Tratava-se de mais uma edição do Dia Sem Carro na cidade, um momento de reflexão sobre o uso do transporte individual motorizado e de ação concreta pela redistribuição do espaço urbano e por mais qualidade de vida.

O melhor negócio do mundo

Se fabricar e vender carros no Brasil é o melhor negócio há mais de 50 anos, nos EUA o petróleo é o motor econômico há mais de um século.

A petrolífera Exxon teve lucro de U$39,5 bilhões em 2006. Foi o maior lucro de uma companhia em toda a história dos EUA, ou melhor, o maior lucro de uma companhia em toda a História.

Os trinta e nove bilhões e 500 milhões de dólares seriam suficientes para comprar o Banco do Brasil e a siderúrgica Gerdau.

Não é à toa que a empresa, através do American Enterprise Institute (entidade de lobby financiada pela Exxon), está oferecendo alguns trocados (US$ 10 mil) para cientistas que se disponham a contestar o relatório do IPCC, o painel intergovernamental que disse “já era” a respeito do clima na Terra. Os cientistas comprados pela Exxon tentarão afirmar que as alterações climáticas não são tão graves assim e que o Homem não é o maior responsável por elas…

Petróleo, capitalismo e guerra são parceiros desde que existem.

O vídeo “Destination Earth”, de 1956, é um divertido exemplo da propaganda de guerra. O vídeo foi patrocinado pelo “Instituto Americano do Petróleo”, uma congregação do lobby petrolífero da época. Hoje este mesmo lobby tem representante direto no assento de vice-presidente dos EUA e segue movimentando milhões em guerra e consumo predatório.

Destination Earth (1956), em inglês:

[no You Tube]

[download no archive.org]

Chico Science morreu em um Fiat

Há exatos 10 anos, em 2 de fevereiro de 1997, morria em um “acidente” de trânsito o músico pernambucano Chico Science. Ele estava em um Fiat Uno e bateu em um poste. O cinto de segurança falhou e a música brasileira perdeu seu último grande gênio.

Francisco Alves, Gonzaguinha, James Dean, Albert Camus, Jackson Pollock, Grace Kelly, Clifford Brown, Jayne Mansfield, Dener e até o rodoviarista Juscelino Kubitschek são outras vítimas famosas encontradas em uma rápida busca na internet e na memória. Isso sem falar nos outros 1,2 milhões de anônimos que perdem a vida em “acidentes” envolvendo automóveis a cada ano em todo o planeta.

O melhor e o pior do Brasil

Vender carros no Brasil continua a ser um negócio acima de qualquer oscilação econômica, crise política ou consciência ambiental. A indústria automobilística continua a bater recorde atrás de recorde. Segundo o Estado de S.Paulo, as fábricas de poluidores registraram o melhor janeiro de toda a sua história no país: foram 150 mil veículos vendidos, 13% acima do índice registrado em janeiro de 2006.

“Nosso setor não tem do que reclamar”, disse satisfeito o presidente da Fenabrave (a federação dos distribuidores). Em 2006, os brasileiros consumiram 1,972 milhão de veículos. 2007 promote ser pior: a previsão é de mais 2,08 milhões entupindo as ruas das nossas cidades.

Se o transporte individual motorizado continua a desfrutar de todos os benefícios e incentivos, quem utiliza transporte público continua a sofrer com a falta de investimentos e qualidade. Na última quarta-feira a prefeitura de São Paulo anunciou que irá “congelar” 10% do orçamento municipal previsto para 2006. A pasta mais afetada é a dos transportes, que sofreu um corte de 28%.

E as mentes dos governantes paulistas continuam infectadas pelo automobilismo. A última idéia brilhante é aumentar em até 60% o número de veículos que circulam por hora na Marginal Tietê. Como? Construindo mais pistas, viadutos e pontes em mais um processo chamado de “revitalização”. E o legado de Paulo Maluf, JK e Prestes Maia continua presente. Até a cidade explodir.

10 minutos

O Lilx publicou um belo vídeo: 10 minutos dentro de um carro.

Para quem já não é mais dependente do automóvel, a perspectiva de dentro da cela móvel pode parecer tortura chinesa. Para os que estão anestesiados com o caos, pode servir para a reflexão. E para aqueles que sonham em comprar um automóvel, serve para lembrar da realidade que nunca aparece na propaganda.

Fez lembrar de outros minutos no trânsito, estes bem mais agradáveis: um vídeo da Transporte Ativo, de bicicleta pelo Rio de Janeiro.

Veja e compare. Dirigir na cidade é um tédio.

Lugar de criança é na rua

Antes do automóvel impor sua lógica às cidades, as ruas serviam também para a convivência e para o lazer. A transformação do espaço urbano em local destinado prioritariamente à circulação de máquinas fez com que as ruas se tornrnassem perigosas.

O carro, propriedade privada, também rouba espaço público das crianças quando estacionado. Em vez de calçadas largas, “playgrounds” e praças, uma longa fila de automóveis estacionados.

A lógica do carro, como já foi dito neste blogue, é parceira da especulação imobiliária. A construção de prédios e condomínios com gigantescas áreas privadas de lazer também é característica da São Paulo segregacionista. Nas regiões mais verticalizadas e ricas da cidade, não é raro encontrar dez quadras esportivas e dez piscinas em um só quarteirão. Quase todas permanecem vazias durante boa parte do ano.

E a massa passou de bicicleta…

Primeira bicicletada do ano, mais de 40 pessoas se juntaram para pedalar, conversar, panfletar e celebrar o espaço público, o transporte sustentável e a convivência pacífica nas ruas.

Praça do Ciclista, bem em cima do buraco da Paulista.

Bicicleta sonora em fase de testes nas ruas. O som animou a concentração na Praça do Ciclista, mas alguns problemas técnicos impediram que o “sound system” da Bicicletada desse sua primeira volta nas ruas.

Fotos do além mar, onde paraciclos e ciclofaixas
não são apenas notícias de jornal.

O grupo CicloBR tocava o Projeto Ciclofaixas, o Bikely no papel.

Uma descoberta: o homem da estátua é Francisco de Miranda, venezuelano que combateu junto com Simon Bolívar pela independência de diversos países americanos.

Provocação na praça?

Além dos 32 que saíram na foto, outros se juntaram no caminho.

Compartilhando água.

Saindo da Praça.

Nós somos trânsito.

Skate também é transporte.

Compartilhando a rua.

Prefeitura

Para-ciclo gambiarra na Prefeitura.

Em fevereiro tem mais. O mês do carnaval marca também o primeiro aniversário da Praça do Ciclista, o ponto de encontro das bicicletadas paulistanas.

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