Desligue e viva


(“Desligue e viva” / ilustração: White Dot)

Já conseguiu se libertar da dependência do automóvel? Já consegue deixar o carro em casa para ir até a padaria, usa bicicleta ou o transporte público para alguns deslocamentos e redescobriu que suas pernas não servem apenas para apertar aceleradores e freios? Maravilha!

Que tal então testar o seu controle sobre um outro vício contemporâneo: tente deixar a televisão desligada entre 23 e 29 de abril. Faça o teste. Leia um livro, saia de casa, ouça uma música, brinque com os seus filhos, converse com a família, convide ou visite amigos.

Depois de uma semana, a chance de você perceber que não está perdendo nada, que não está menos informado e que teve bons momentos sem a tevê é bastante grande.

Mas se você sentir tremedeiras, tédio profundo ou falta de vontade de viver, é melhor deixar a tevê desligada por mais tempo. Talvez você esteja dependente das informações pasteurizadas, unidirecionais e monopolizadas exibidas em 99% das 24 horas do dia.

O pimenta negra traz alguns videos bastante ilustrativos sobre o assunto. E vale a pena dar uma olhada também no White Dot, que está propondo mais este momento de reflexão mundial.

Na terça-feira (24), por exemplo, você pode aparecer lá na Casa das Rosas para o lançamento do livro Marvadas, de Tião Nicomedes. Segue abaixo o convite.

(clique na imagem para ver os detalhes)

A maior bicicletada do mundo


(foto: kdezsoe)

No último domingo, Dia da Terra, cerca de 50 mil cidadãos participaram do maior evento de massa crítica que se tem notícia até hoje. Ocuparam as ruas de Budapeste com suas bicicletas, patins e skates, celebraram o planeta, a convivência e as alternativas sustentáveis de locomoção.

No criticalmass.hu você encontra uma série de links para centenas de fotos, vídeos e notícias.

No velo.hu, um vídeo maravilhoso. O nijaalleycat tem mais vídeos, um deles com a clássica levantada de bicicletas. E outro ótimo do hgv.hu.


(foto: soundblog)


(foto: rombolo)


Um carro a menos!
(foto: worki)

Bicicletário e esperança


(fotos: luddista / Edu Green)

No último sábado (21) a cidade de São Paulo deu mais um passo importante na propagação das bicicletas como meio de transporte urbano.

Foi inaugurado pelo governo do Estado o primeiro bicicletário em uma estação do Metrô, a simbólica Guilhermina-Esperança, na zona Leste da capital.

Parabéns aos responsáveis pela iniciativa, que conseguiram superar o discurso que limita o planejamento cicloviário à construção de ciclovias. Permitir o estacionamento de bicicletas e integrar os ciclistas ao transporte coletivo é extremamente pertinente em uma cidade do tamanho de São Paulo.

Ainda que a construção de ciclovias seja muito importante, especialmente em vias de fluxo intenso, um planejamento cicloviário decente vai muito além.

Favorecer o transporte por bicicletas não é apenas segregar o ciclista em seu deslocamento, até porque é impossível criar vias exclusivas na cidade inteira. As ciclovias devem estar conectadas com rotas cicloviárias e ciclofaixas, não deixando de lado a existência de locais para estacionamento e a integração com o transporte coletivo.

Favorecer o transporte por bicicletas também passa pela educação, inserindo o respeito a pedestres e ciclistas nos cursos de formação de condutores, desenvolvendo campanhas educativas permanentes e também punindo os infratores.

O Código de Trânsito diz que a bicicleta é um veículo como outro qualquer, com circulação preferencial nas vias sobre os demais veículos. Os motoristas devem reduzir a velocidade e manter distância lateral de 1,5m ao ultrapassar ciclistas.

Não existe, no entanto, nenhum registro de multa aplicada para esta infração e as justificativas não convencem. Também são raras, se não inexistentes, as multas aplicadas para quem ameaça ou desrespeita pedestres ou para quem não usa a seta ao fazer conversões.

Quando as infrações que visam proteger as pessoas começarem a fazer parte do cardápio dos agentes de trânsito, teremos ruas mais seguras para todos. Enquanto a prioridade for manter o “bom” andamento do fluxo motorizado, seguiremos acreditando que a solução é isolar a vítima, e não reduzir a ameaça.

Na manhã de sábado, cerca de 20 ciclistas partiram do bairro do Paraíso, com a esperança de que as iniciativas de promoção do uso da bicicleta e redução do uso do transporte motorizado individual sejam cada vez mais freqüentes.

O caminho escolhido foi um tanto insólito: a Radial Leste, principal eixo viário da região, é uma avenida de fluxo intenso, com ônibus, motos, caminhões e automóveis disputando espaço, fazendo barulho e soltando fumaça. Escolha mais adequada seria um caminho alternativo, como este, postado no Bikely.

Para enfrentar os motorizados, alguns Guardas Municipais em motocicletas fizeram a escolta dos ciclistas.

Viaduto no centro, em direção à zona Leste. Passar por aí de bicicleta, só com escolta e no final de semana. Repare na sujeira deixada no canto da pista: o fluxo de motorizados empurra todos os detritos para a sarjeta, local utilizado geralmente pelos ciclistas que se deslocam pela cidade.

Não levou muito tempo até o primeiro problema. Um parafuso na pista deixou um pneu furado. Graças à solidariedade de alguns dos participantes, a troca foi rápida e pudemos continuar.

Os retardatários, sem escolta motorizada, enfrentaram o trânsito da Radial por mais de 15 minutos até encontrar o resto da turma.

Alguns quilômetros depois, o segundo problema. Um motorista apressado não respeitou o ciclista que pedia para os motorizados esperarem o grupo passar e acelerou sua arma de quatro rodas para cima da bicicleta.

Enfim, ruas tranqüilas.

Acima, vereadora Soninha (com o governador José Serra ao fundo). Abaixo, secretário Eduardo Jorge. Dois grandes promotores da mobilidade sustentável em São Paulo.

Teresa D’Aprile, fundadora do grupo de pedalada feminino Saia na Noite, recebeu o cartão número 1 do bicicletário.

Estrutura adequada, gratuita e segura para mais de 100 bicicletas.

Na volta, pedalamos pelas horríveis calçadas da Radial Leste até um caminho por ruas mais tranqüilas. Veja um vídeo do Edu Green deste trecho do percurso.

As calçadas encontram-se em péssimo estado de conservação, com buracos, cacos de vidro e sujeira de todos os tipos. As faixas de pedestre estão distantes umas das outras (uma delas fica a mais de 1,5km do ponto de ônibus). Os tempos dos semáforos seguem a lógica paulistana: não atrapalhar o trânsito; ficam abertos durante alguns segundos para os pedestres e uma infinidade de tempo para os motorizados.

De volta às ruas tranqüilas. E o desrespeito ao cidadão, como sempre, visível em qualquer rua, em qualquer horário. Carros estacionados em frente ao ponto de ônibus atrapalham a visão e o embarque dos pedestres nos coletivos.

No Tatuapé, um paraciclo em uma academia de ginástica. A iniciativa privada começa a descobrir que o estacionamento de bicicletas é uma iniciativa viável e cidadã, que promove o transporte sustentável e economiza espaço.

Mais um passo: bicicletário no metrô


(foto em creative commons: .fs)
No próximo sábado (21) a cidade de São Paulo dá mais um passo para estimular o transporte inteligente, que não polui o ar e não congestiona as ruas. A partir das 12h será inaugurado o primeiro bicicletário em uma estação do Metrô, a Guilhermina-Esperança, na Zona Leste.
Alguns grupos de cicilistas irão prestigiar a boa iniciativa, com pedaladas marcadas para as 10h da manhã saindo de diversos pontos da cidade.

Confira os pontos de partida e os roteiros desta pedalada em direção a Esperança no CicloBR e veja também o esquema de funcionamento do novo bicicletário.

Cara-de-pau sem limites


(reprodução: anúncio em revista)

Eles poluem o ar da sua cidade e te dizem para fugir de onde você mora.

Eles criam o trânsito que imobiliza a cidade e obrigam você a usar motoboys para entregar de tudo.

Eles transformam as ruas em locais inóspitos, barulhentos e degradados e vendem o isolamento da bolha motorizada para que você não perceba o quanto a cidade é inóspita, barulhenta e degradada.

Eles colam selinhos do IBAMA nas propagandas, chamam suas máquinas poluidoras de “Eco” e adoram associar a natureza que tanto destroem aos seus produtos.

Pinóquio era um rapaz muito sincero…

O dia em que eu quase morri por causa de um carro

Noite de 10 de abril, sexta-feira de feriado em 1998, exatos 7 dias antes do meu aniversário. Por alguns centímetros, uma fração de segundos ou qualquer outra unidade mínima de tempo ou espaço, aquela Páscoa não foi a última da minha vida.

Estacionava o carro em uma rua de Higienópolis, bairro nobre de São Paulo. Acabava de resgatar uma amiga motorista que teve a saia enroscada no pedal do freio, perdeu o controle do veículo e bateu contra uma árvore. O acidente foi leve, mas o carro dela não andava e teve que ser rebocado por um guincho. Fui com um amigo buscá-la e depois retornaríamos para continuar a confraternização de uma turma que se conheceu no colégio.

Depois do resgate, de volta a Higienópolis, descíamos do Fiat Palio quando dois homens subiram a rua e anunciaram o assalto. Um deles me abordou, sacou uma arma e começou a gritar “passa tudo, passa tudo”. O outro deu a volta no carro, e abordou minha amiga, que desembarcava pelo lado do passageiro. O terceiro amigo ainda estava no banco de trás. Ela conta que o assaltante mandou os dois voltarem para dentro do carro, na tentativa de um seqüestro relâmpago.

O ladrão que me abordava gesticulava de arma em punho, mas olhava para o outro lado do carro, talvez para dar “cobertura” ao companheiro desarmado.

Não reagi. Dizia “calma, calma”, mas ele gesticulava com a arma e só dizia “passa tudo, passa tudo”. Deixei a carteira e a chave no banco do carro e fui me afastando. PÁ! Barulho seco. Nunca tinha ouvido, mas era um tiro e tinha sido disparado a um metro de distância de mim. Não senti nada, mas a adrenalina a mil e o instinto de preservação me colocaram em posição fetal.

De cócoras ao lado do carro, com as mão sobre os ouvidos, a vida passou inteira na minha cabeça. Passa sim, é verdade. Passado, presente e futuro, tudo junto, fluido, rápido e eterno. Um segundo, um minuto ou uma hora depois, não sei, começava a voltar à Terra. Levantei, senti braços, pernas e coração batendo e pensei “estou vivo, não morri”.

Os dois ladrões, logo depois do disparo, saíram correndo. Não levaram nada. Me abaixei para pegar a carteira e a chave do carro que havia deixado sobre o banco, quando senti algo escorrendo no pescoço. Os dedos roçaram o buraco na pele. Não era fundo, mas era um buraco. Não sentia nada. Instinto: “Tomei um tiro, vamos para o hospital”. Minha amiga, também em estado de choque, saiu correndo e foi buscar ajuda no apartamento onde iríamos encontrar os outros. O amigo que estava no banco de trás, lá ficou, imóvel, estático. Instinto.

Outra amiga desceu, tomou as chaves da minha mão e me colocou no banco do passageiro. Seguimos para o Hospital das Clínicas. Eu segurava uma blusa para estancar o sangue. Não sabia ainda qual a gravidade do ferimento, mas imaginei que nenhuma função vital tinha sido afetada. Apesar da adrenalina, que segura muita gente de pé em situações críticas, já havia passado um bom tempo e eu continuava vivo e minimamente lúcido.

Hospital, maca, roupas rasgadas e imobilização para não movimentar o pescoço, médicos e enfermeiras circulando ao redor. A adrenalina já tinha baixado, veio a dor: um médico limpava o ferimento com iodo. Sentia o algodão dentro do meu corpo, aquelas luzes de hospital, aquele cheiro de éter… Radiografia, vacina anti-tetânica e depois virei atração turística na maca. Plantão médico em pronto socorro é assim mesmo: um monte de médicos e enfermeiros em residência, ávidos para conhecer e estudar os casos que chegam. Dessa vez eu era o rato branco do laboratório.

– Um FAF nessa região do corpo… meu caro, você tem sorte de estar vivo, 90% dos casos que entram aqui com FAF desse jeito saem ao menos paraplégicos.
– Sério?
– Sério… Você nasceu de novo, hein?
– Pois é, e semana que vem é meu aniversário.
– Nossa, então tem que comemorar duas vezes.

FAF era o Ferimento a Arma de Fogo do qual eu tinha sido vítima a pouco mais de um metro de distância. Foi de raspão, do lado direito do pescoço.

– Sorte sua que foi desse lado garoto: do lado esquerdo fica a jugular e tiro ali faz jorrar um monte de sangue.

Nenhum órgão vital atingido, nenhum osso, nenhum nervo. Apenas uma cicatriz e uma falha na barba depois de alguns anos.

Dirigi automóveis dos 18 aos 24 anos. Em diferentes graus de perigo, fui assaltado pelo menos 4 vezes. Somados aos furtos de toca-fitas e pequenas colisões, a estatística deve chegar a 10 “incidentes”. Todos resultaram em perdas econômicas e alguns trouxeram risco de vida. Sobrevivi.

Vendi o carro há 4 anos. Com o dinheiro, viajei para o exterior e meses depois comprei uma bicicleta. Não fui assaltado nenhuma vez desde então. Continuo a circular pela cidade nos mais diversos horários do dia e da noite, a pé, de ônibus, metrô ou bicicleta.

A maior parte dos paulistanos tem a ilusão de estar mais seguro dentro de um carro do que andando a pé. Acham que as ruas são perigosas e vivem com medo, de vidros fechados e, se possível, blindados. Ironicamente, boa parte deles já foi assaltado, sequestrado ou sofreu outro tipo de violência por causa do veículo.

É claro que os assaltos em ônibus ou calçadas também acontecem, como acontecem também em mansões e condomínios super-protegidos com esquemas paranóicos de segurança ou em casinhas de classe média baixa. Mas em um país cuja distribuição de renda só é pior do que em Serra Leoa, é óbvio que os milhares de Reais sobre quatro rodas chamam atenção, ou melhor, atraem criminosos.

A solução para a violência urbana passa pela distribuição da riqueza, pelo investimento em educação, moradia e saúde, pela redução na corrupção e também pelo investimento em segurança pública. Resgatar as ruas e transformá-las em ambientes seguros e agradáveis não é algo que possa ser feito de dentro de um carro blindado. Soluções privadas vendidas como panacéia contra a criminalidade não são capazes de solucionar problemas públicos, que exigem, é claro, soluções coletivas.

Como diz o sábio Rogério Belda no vídeo Sociedade do Automóvel, “ao segregar os habitantes em locais onde se acessa por automóvel e a rua passa a ser inóspita pelo tráfego e pela poluição, nós estamos abandonando a cidade e deixando que ela seja ocupada exatamente por aqueles que não são cidadãos”.

Venha poluir e fazer barulho você também


(encontrada por um leitor do blogue no forum do MountainBikeBH)

Se existisse um concurso para premiar as iniciativas mais cretinas do comércio, a revendedora de motos acima estaria disputando as primeiras colocações.

Não custa lembrar que uma moto polui mais do que um ônibus e que os motorizados de duas rodas não passam de subprodutos dos automóveis, não tendo nada a ver com bicicletas ou pedestres.

1º mandamento para administrar SP: nunca atrapalhe os carros

“A calçada da avenida Doutor Arnaldo começou a ser recuperada ontem (06/03). O objetivo da Prefeitura de São Paulo é torná-la mais acessível e confortável para o pedestre da região. (…) Durante o trabalho, metade da calçada ficará sempre livre para a circulação de pedestres. Também não será necessário, segundo a prefeitura, interferir no trânsito da via“. Folha de S.Paulo, 07/03/2007

A culpa é dos postes, que estavam na metade errada da calçada….

Quando o sábio aponta para o céu, o idiota olha o dedo

(do mestre Singer, encontrada no site da Massa Crítica do Porto)

Carro, veículo do passado


“ponha a diversão no meio das suas pernas”

texto: Fabio Veronesi
publicado originalmente no blog da Transporte Ativo

“A pessoa que passa andando na rua de bicicleta é alguém que está fazendo bem ao mundo e a si mesma. Com esforço próprio combate a poluição e o aquecimento global na prática, sem discursos panfletários, sem levantar bandeiras, sem querer impor nada a ninguém, ela está contribuindo para melhorar o ar que todos respiram hoje e o clima do planeta para as futuras gerações.

(…)

Mas, atenção motoristas! isso não é uma declaração de guerra. Pelo contrário: é de paz! Porque a idéia é que todo mundo possa deixar seu carro em casa quando sentir vontade e possa andar de bicicleta sem colocar sua vida em risco. Também acredito, como ciclista, que nenhum motorista quer nos atropelar. Então o que há de errado? Por que isso, infelizmente, acontece diariamente? A resposta exige que paremos para pensar um pouco. A quem interessa uma política e uma cultura que prioriza as vias de transporte para veículos automotores? Qual será a influência da indústria automobilística nas decisões dos governos e conseqüente direcionamento de recursos para infraestrutura que atende a nossa necessidade de transporte? E no inconsciente coletivo das pessoas? Já parou para pensar que, desde que você começou a assistir televisão na sua vida, você vê quase todos os dias uma propaganda de carro? Que a idéia de que “quanto mais for feito pelo automóvel, melhor” é um consenso forçado pela mídia e pelas instituições financeiras, alegando que a economia do país irá parar se a indústria automobilística diminuir sua sempre crescente demanda de consumo?

(…)

A bicicleta não atrapalha o automóvel na ocupação de espaço nas ruas e avenidas. Pelo contrário.
Lembrando que de uma forma ou de outra todos tem que se transportar, conclui-se que cada motorista que deixa seu carro em casa e sai de bicicleta abre espaço nas ruas, tanto quanto é a diferença entre o espaço que ocupa um automóvel e uma bicicleta. Se centenas, milhares de pessoas fizerem essa opção, o espaço aberto será enorme, muito maior do que aquele que se consegue gastando fortunas do dinheiro público com ampliações de avenidas e construção de elevados.

(…)

A bicicleta é uma revolução social, econômica, política e ideológica possível aqui e agora! Quando vejo nas grandes avenidas das grandes metrópoles, centenas de automóveis indo na mesma direção, a grande maioria com apenas um ser humano dentro, com sua atenção tomada pela responsabilidade de dirigir, caminhando lado a lado com outros seres humanos hermeticamente isolados uns dos outros dentro de suas “caixinhas” móveis sem se comunicar, penso no quanto isso poderia ser diferente.

(…)

Cerca de 85% da energia consumida por um automóvel é gasta para transportar a ele mesmo.

(…)

Na bicicleta dependemos de energia própria, não há, portanto, concorrência entre as pessoas que buscam transportar-se, pelo contrário, ao nos unirmos com outros seres humanos ganhamos incentivo para ir mais longe. O automóvel depende de energia externa, limitada e não-renovável, o que gera concorrência entre os que dela dependem. O automóvel é um dos melhores símbolos físicos da ideologia capitalista. Os slogans de suas propagandas trabalham sempre com termos como mais potente, mais veloz, maior em sua categoria, mais econômico, mais bonito, mais robusto, mais confortável, etc., etc., etc.

A modernidade diminuiu o tempo de comunicação e de transporte. Criou-se uma falsa ilusão de que esse movimento tem que ser sempre crescente para ser melhor. Estamos nos entupindo com veículos velozes que não tem espaço para andar. Chegamos a um ponto em que um veículo menor em tamanho e velocidade, como a bicicleta, tem melhores condições de se locomover e gasta menos tempo.

Poucos sabem ou se lembram que o código brasileiro de trânsito, assim como a maioria das legislações sobre o trânsito no mundo todo, determina que o automóvel dê preferência à bicicleta nas ruas e avenidas. Ou que a distância mínima, prevista pela lei, para ultrapassar uma bicicleta é de 1,5 metros e caso não haja condições de ultrapassagem respeitando essa distância mínima, o automóvel deve aguardar, pois a bicicleta não pára o trânsito, ela é o próprio trânsito naquele momento.

Agora, que não se iludam os que querem começar a utilizar a bicicleta para transportar-se: vão entrar numa guerra! Uma guerra que já está sendo travada nas ruas e que deixa centenas de mortos e feridos todos os dias. Não uma guerra contra os motoristas e os automóveis (repito), mas uma guerra contra uma ideologia. Andar de bicicleta é lutar contra um sistema que associa respeito a posse e exibição. Lutar através de atitude própria, pela ação direta, cotidiana, pelo ato de pedalar em si, pela força da humildade num mundo de ostentação.

Como em toda guerra, a sobrevivência depende das estratégias que elaboramos. O ciclista deve se equipar com tudo que possa diminuir a possibilidade de acidentes e que esteja ao seu alcance providenciar: espelho retrovisor, reflexivos e iluminação pisca-pisca para noite, capacete, buzina, etc. Não adianta bater de frente com os automóveis, mas deve-se ocupar o espaço que é do ciclista, porque ele existe e é um direito seu ocupá-lo. O ciclista também paga os impostos que construíram e que fazem a manutenção da malha asfáltica.

(…)

A luta do ciclista é contra a ideologia que dá prioridade máxima ao automóvel – a locomotiva histórica do sistema capitalista. Mas, apesar de estarmos lutando contra um sistema econômicosocial, são as pessoas, influenciadas pela educação e adaptação ao modo de pensar desse sistema que tomam as atitudes cotidianas que enfrentamos no trânsito. De certa forma, não existe esse tal “sistema”. Ou seja, ele existe através das atitudes das pessoas. A ideologia do sistema, o conjunto de idéias compartilhadas, é imposto pela educação e depois é mantido como verdade aceita através de muita propaganda. Mas… como tratam-se de atitudes pessoais, de individualidades representando o sistema, de seres humanos repetindo padrões de conduta, esse sistema pode ser modificado também por atitudes, pelo exemplo contrário ao estabelecido.

Os ciclistas que enfrentam hoje o trânsito das cidades são pioneiros abrindo o espaço para o futuro. Foi-se o tempo em que a rebeldia revolucionária era representada pela moto. Ciclismo é sinônimo de saúde e juventude, indiferentemente da idade. A melhor estratégia para essa luta é conseguir mostrar o quanto é bom andar de bicicleta. Criar uma irmandade entre todas as pessoas que andam de bicicleta. Ciclistas devem se cumprimentar quando se cruzam nas ruas, deixar extravazar o prazer que estão sentindo invadidos por endorfinas criadas pelo esforço físico e pelo andar numa velocidade em que se pode admirar a paisagem e as pessoas.

A revolução ciclista é lúdica! A bici
cleta é um brinquedo de criança que se transforma em prazer e opção de transporte para o adulto.

(…)

Não são somente ciclovias que queremos porque não podemos e não precisamos esperar a boa vontade de governos que estão submissos à força econômica da indústria automobilística para iniciarmos nossa revolução cotidiana. Não precisamos!

Cerca de 20% da população tem a possibilidade de comprar e manter automóveis, mas 100% da população é afetada pelo direcionamento da arquitetura urbana para priorização do trânsito de automóveis e todos pagam os impostos que constroem as vias por onde eles transitam. A bicicleta é uma forma de democratizar a malha asfáltica, diminuir essa diferença.

(…)

Transcendendo o conceito, o termo “Massa Crítica” ou “Critical Mass” dá, hoje, nome ao movimento mundial que busca unir a força de todos os ciclistas na formação de uma grande massa crítica (acrescendo ao significado: pessoas com opinião crítica sobre a situação gerada pelo consumo alucinante de petróleo) que está invadindo naturalmente as ruas do mundo inteiro. O movimento de formação da Massa Crítica é, até que enfim, a esperança de um mundo melhor construído com ações diretas.

O resgate do orgulho pessoal de estar fazendo algo concreto contra o sistema capitalista, mas sem gerar violência. Enfim, uma possibilidade real de revolução social se concretizando a cada revolução da roda de uma bicicleta. A opção possível de transformar a revolta contra o aquecimento global e a devastação consumista do nosso planeta em atitude, saúde e prazer.

A bicicleta é, sem dúvida, o veículo do séc. XXI. Nós só estamos no começo dessa história.”