(mais uma) Triste bicicletada

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foto: Daniel Moura Soares

No último sábado (28), a bicicletada de maceió estava de luto. Em 12 de fevereiro, o ciclista José Carlos Félix Pereira foi assassinado por um ônibus enquanto trafegava na Av. Durval de Góes Monteiro.

A bicicletada de fevereiro na capital alagoana pendurou uma bicicleta fantasma no local do “acidente” (ironicamente, em frente ao IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente).

José Carlos usava sua bicicleta como instrumento de trabalho. Equipado com um sistema de som, circulava por Maceió fazendo propaganda do comércio local.

A mídia carrocrata mais uma vez distorceu os fatos, ignorou a lei e culpabilizou a vítima. Como no atropelamento da paulistana Márcia Prado, alegou que José Carlos “fez uma manobra errada”. Em São Paulo, chegou-se a dizer que Márcia perdeu o equilíbrio e só então foi morta pelo ônibus (fato desmentido por testemunhas e não considerado por jornalistas sensatos – a maior parte dos que cobriram a morte da Márcia, diga-se).

O Código de Trânsito Brasileiro, ao prever a distância lateral de 1,5 metros e exigir a redução da velocidade durante a ultrapassagem de ciclistas busca exatamente preservar a vida do “elo mais fraco” em caso de “manobras erradas” (geralmente desviar de buracos, que não são causados pelo fluxo de bicicletas nem de pedestres). Em ambos os casos, é fato que esta distância não foi respeitada e que o motorista não reduziu a velocidade “de maneira compatível com a segurança”

Além disso, em qualquer cidade brasileira é notório que a convivência com os ônibus é a pior possível, o que se torna mais grave quando lembramos que o transporte coletivo é uma responsabilidade do Estado.

No entanto, o modelo de transporte no Brasil é apenas um modelo de negócios baseado no capitalismo selvagem: maximizar os lucros dos donos das empresas, sujeitando motoristas a prazos e condições desumanas, entupindo os coletivos de passageiros, cobrando tarifas extorsivas e sobrepondo rotas nos locais mais ricos das cidades.

Ainda são poucas e pífias as iniciativas de treinamento de motoristas de ônibus para convivência pacífica no trânsito e, em boa parte das cidades, esta responsabilidade é deixada a cargo das próprias empresas, sem nenhuma supervisão ou “interferência” do poder público.

Trocando em miúdos, o poder público brasileiro é menos responsável e gasta menos recursos para zelar pelo direito de ir e vir dos cidadãos do que, por exemplo, para cuidar das regras de consumo de telefones celulares.

Quem já andou de ônibus em São Paulo se lembra do irritante apito que soava quando o motorista “esticava” uma marcha. De pequena importância, mas de forte poder simbólico, o dispositivo servia apenas para salvar dinheiro das empresas em combustível ou manutenção.

José Carlos é mais uma vítima da cultura do motor e da pressa, que coloca o lucro acima da vida. Infelizmente, não será a última.

O jornal
Tudo na hora
GazetaWeb (a mídia motorizada – deixe comentários)

5 Comments

  1. Posted 04/03/2009 at 9h49 | Permalink

    Permita-me fazer um relato.

    Não faz muito tempo – ainda no período de férias-, eu trafegava de bicicleta por dentro do campus da Unisinos (universidade que tem aqui em São Leopoldo/RS). Existe uma linha de ônibus gratuita que leva os estudantes da estação de trem mais próxima até o campus.

    Pois bem, eis que um destes ônibus não respeitou os 1,5m e passou, em velocidade alta, há poucos centímetros de mim. O cagaço que levei poderia ter tido consequencias bem mais desagradáveis.

    Mas chegando em casa, escrevi um e-mail para a empresa de ônibus explicando o ocorrido, que foi uma infração de trânsito, que poderia ter morrido, etc e tal… O que me surpreendeu foi que, dois dias depois, eles me responderam informando que o motorista já havia sido enviado para a reciclagem (espero que seja de fato uma reciclagem, não o olho da rua…)

    Então… por mais que essas mortes continuem acontecendo (e irão!), as vezes um simples ato de comunicação pode evitar que mais acidentes aconteçam.

    As vezes não é nem má vontade, é somente ignorância mesmo…

  2. Marcelo
    Posted 04/03/2009 at 17h02 | Permalink

    Jose,

    O “olho da rua” é pouco para esses assassinos. Não se sinta minimamente culpado se algo do tipo aconteceu (mas eu duvido que alguém seja mandado embora por isso). O que ele fez com vc foi um desrespeito muito grande, acredito que não há reciclagem que resolva um problema de caráter. Alguém conduzindo um veículo que pesa algumas toneladas e a quem diversas pessoas confiam sua segurança e suas próprias vidas não pode em sã consciência tirar fina de um ciclista ou pedestre, estando estes dentro da lei ou não. Muitas vezes, um motorista considera-se um “justiceiro”, onde quem “infringe” a lei tem que pagar. Só que o julgamento muitas vezes é feito sem o conhecimento da lei – já vi, por exemplo, motoristas de ônibus que diziam que eu teria que pedalar sobre a calçada! Daí, já viu: sai o veredito, executa-se a pena em décimos de segundo. Só depois é que o promotor/juiz/jurado/algoz vai se dar conta e dizer, como no caso da Márcia: “Estou com a consciência tranquila”.

  3. Posted 04/03/2009 at 19h33 | Permalink

    Pois é duas situações de exclusão e uma vida encurtada.

    Se José Carlos era uma dos tantos trabalhadores com direitos “flexibilizados” e criava filhos menores. Eles conhecerão os “efeitos da globalização” na hora do jantar.

    Ciclista, excluído das ruas e do debate sobre transporte; trabalhador informal, desassistido, dominado pelo mercado… Mais um cidadão José

    Uma amostra do sistema de som comum por lá.

    e outros registros da cidade
    http://tinyurl.com/bvzmwg

  4. Posted 04/03/2009 at 19h34 | Permalink

    ops… o sistema de som das bikes:
    http://www.flickr.com/photos/panopticosp/2171016415/

  5. Luiz Carlos Silva
    Posted 16/03/2009 at 15h44 | Permalink

    é notoria a falta de preparação dos operadores de onibus aqui em maceió!
    Carlos era meu amigo, e sabia muito bem como trabalhava com bicicleta! Até hoje não me conformo pelo que aconteceu com ele. Por uma simples falta de preparação, de conscientização, de humanidade mesmo, no transito de nossa capital.

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