A sauna do Bilhete Único

Tarde de muito calor em São Paulo, fui com uma amiga retirar o Bilhete Único no posto da SPTrans que fica na rua Augusta. Ela não possuía o cartão e eu precisava cadastrar o meu.

Para evitar as fraudes e o desperdício de cartões, a prefeitura passou a obrigar os portadores do Bilhete Único a cadastrar o cartão magnético. Assim, cada cidadão fica responsável pelo seu bilhete e, em caso de perda, terá que pagar pela segunda via.

Ao passar pela porta rotatória (daquelas que existem em bancos), um bafo quente que vinha de dentro do posto avisava que a tarefa não seria fácil. Mais de 100 pessoas em uma sala relativamente pequena, apenas 4 ventiladores funcionando e três aparelhos de ar condicionado desligados (!!!).

Encontrar um funcionário para pedir informações também não foi muito fácil. Apenas dois homens vestidos com coletes amarelos circulavam pela sala. Tempos depois, na fila, descobrimos que diversos funcionários “à paisana” estavam por lá, mas sem ao menos utilizar crachás de identificação.

Munidos de formulários, entramos na fila. Apenas os 10 primeiros eram beneficiados pela brisa de um dos ventiladores. Quem estava atrás, sofria com o calor que devia ultrapassar os 40 graus. Vinte minutos depois, pensei que faltavam apenas folhas de salsinha e um pouco de sal para que todos saíssem de lá prontos para serem degustados com batatas.

Dos 11 guichês disponíveis, 4 estavam vazios e apenas dois faziam o atendimento de quem precisava tirar o Bilhete Único ou cadastrar o cartão.

A espera no forno… ou melhor, na fila, também foi bastante agradável: além do calor, um funcionário suando em bicas gritava a cada 3 minutos números de senhas, já que o local não possui aqueles painéis indicativos, comuns em qualquer supermercado.

Após 45 minutos e uns 3 quilos a menos, entregamos o formulário molhado de suor para o atendente. Missão cumprida. Fui procurar alguém responsável para reclamar das condições desumanas a que fomos submetidos.

O funcionário que suava em bicas e gritava as senhas informou que o gerente estava ocupado. Eu disse que aquele calor era um absurdo e sugeri que ele convidasse o prefeito para tirar o Bilhete Único ali.
– Ah, é todo dia assim… E eu, que passo o dia inteiro aqui?
– E o ar condicionado? Porque não está ligado?
– Porque a Eletropaulo não autoriza, diz que a instalação elétrica do prédio não suporta o ar condicionado. O equipamento está aí desde que o posto foi inaugurado, mas nunca chegou a ser ligado…

A experiência traumática desta tarde na SPTrans é um belo exemplo do tratamento dispensado pelas autoridades a quem utiliza transporte público na capital.

Visitar o terrível e inútil site da SPTrans é outro belo exemplo. Ao compará-lo com o site da London Busses dá pra entender porque transporte público em São Paulo é “coisa de pobre”, de quem não “venceu na vida” e não tem dinheiro para comprar um carro. E a cada dia mais gente morre no trânsito, sofre com a poluição, com o barulho, com a agressividade e com a total imobilidade no município…

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