Vauban e o uso racional do automóvel

foto: cc tom brehm

(tradução livre de artigo publicado na edição 42 da revista Carbusters)

A pequena comunidade de Vauban, na periferia de Friburgo, sudeste da Alemanha, é um bom exemplo de como a participação dos cidadãos é fundamental para reduzir a pegada ecológica. Com a ajuda de programas de compartilhamento de automóveis, políticas de restrição de estacionamento e uma excelente infraestrutura de transporte público e bicicletas, a cidade de Friburgo, junto com o Fórum Vauban, criou uma comunidade onde o uso do automóvel se restringe ao necessário.

Vauban, até o momento da reunificação alemã, era uma base do exército francês. Concebida como uma base militar, seu “desenho urbano” jamais foi pensado para acomodar o uso do automóvel particular: suas ruas serviam apenas como pequenas passagens entre as instalações.

Quando os militares franceses deixaram o local, em 1992, os habitantes de Vauban ganharam uma área relativamente construída de 41 hectares e a administração planejou demolir tudo e construir um novo empreendimento imobiliário.

Um grupo de estudantes, adultos solteiros e cidadãos desempregados decidiu ocupar partes de Vauban, protestando contra o novo empreendimento e estabelecendo uma comunidade baseada nos princípios da auto-organização e do baixo custo. Eles começaram a se chamar de SUSI: sigla para Ocupação Independente e Auto-Organizada. Depois de longas negociações com o governo, os ocupantes conseguiram construir quatro prédios e converter as instalações militares em moradia para mais de 260 pessoas, utilizando o espaço também para áreas de lazer, postos de trabalho e diversão – tudo livre de carros.

foto: cc adeupa de brest

O Projeto SUSI consistiu em um experimento de modos alternativos de vida e planejamento: o objetivo era construir formas sustentáveis de vida e trabalho. Construir de maneira ecológica, econômica e livre de carros foi a maneira de alcançar uma comunidade sustentável e socialmente integrada.

As moradias do Projeto SUSI ocupavam apenas uma pequena parte de Vauban. A utilização dos 38 hectares remanescentes foi submetida à consulta pública pelo Fórum Vauban, que convenceu as autoridades inicialmente céticas a respeito da importância de manter a área livre de carros. O Fórum Vauban funcionava como “braço jurídico” da participação popular e foi co-responsável pelo desenho urbano que viria abrigar os novos habitantes.

A construção da nova Vauban começou em 1998, tendo como base a utilização de soluções ecológicas para eletricidade e saneamento. Uma usina movida a gás e serragem fornece energia para dois terços de Vauban; painéis solares cobre o resto da demanda. Um sistema de drenagem foi construído em todo o distrito.

foto: cc kaffeeeinstein

A organização do sistema de transporte parte de um princípio diferente: em vez de controles e penalidades, eles escolheram dicas e políticas comuns. As alternativas sustentáveis devem ser atrativas: tarifas baixas para o transporte público e custo bastante alto para o estacionamento de automóveis, rotas para bicicletas que levam a todos os lugares e vagas de estacionamento de carros localizadas apenas em garagens na periferia.

A ideia de uma sociedade livre de carros desempenhou papel central na constituição de Vauban, mas o termo “sem carros” é raramente utilizado. O uso individual do automóvel é que é o problema e os programas de compartilhamento de veículos são estimulados.

Os residentes das partes livres de carro de Vauban devem assinar uma declaração anual de posse ou não de um automóvel. E se eles possuem um carro, devem comprar uma vaga em uma das garagens da periferia. As vagas são cobradas de acordo com o custo real desta infraestrutura: o preço de uma vaga ultrapassa os 17 mil Euros, além de uma cobrança mensal pela manutenção.

Vauban não é uma comunidade livre de carros, mas uma comunidade que faz um uso racional destes. Uma pesquisa realizada em 2000 detectou que 54% dos habitantes possuíam automóveis, mas que apenas 16% das viagens eram feitas utilizando este veículo.

Ainda que Vauban não seja livre de carros, existe uma outra área de Friburgo que é: desde 1971 a cidade vem fazendo investimentos massivos em áreas para pedestres, infraestrutura cicloviária e transporte coletivo. Desde 1984 todo o centro histórico é completamente livre de carros.

Hoje a população de Vauban excede os 5 mil habitantes. Famílias com crianças vivem próximas umas das outras em prédios com 4 ou 5 andares, utilizando ônibus para ir à escola ou ao trabalho juntas e, vez ou outra, compartilhando um carro para fazer compras de volumes maiores. Desde 2006 existe uma linha de bonde conectando Vauban e o centro de Friburgo e o desenvolvimento de novos conjuntos habitacionais segue em curso.

forum vauban (en – de)
susi projekt (de)
vauban.de (en – de)

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8 Comments

  1. Posted 02/06/2010 at 17h46 | Permalink

    Demais Thiago!
    Muito bom o texto, já tinha lido sobre Vauban, mas você foi lá atrás e pegou desde o início do “projeto”. A sinalização da rua ficou linda demais! Vamos usar aqui!

    Abração!

  2. Posted 02/06/2010 at 19h33 | Permalink

    Bacana!

  3. Eu q somos Nós
    Posted 04/06/2010 at 16h33 | Permalink

    O MUST !

  4. Posted 04/06/2010 at 21h40 | Permalink

    Gostei de saber que um lugar desses funciona, eu não estou louco, pelo menos em um lugar desse planeta eu seria compreendido.
    Talvez as menores cidades do Brasil tenham a chance de serem assim pois creio que as grandes já estejam condenadas Thiago

  5. Posted 04/06/2010 at 21h43 | Permalink

    nos EUA criaram a Skatopia, uma “cidade” de 88 acres com suas regras, cujo meio de transporte pricipal é o skate!!

  6. Posted 04/06/2010 at 22h15 | Permalink

    http://www.youtube.com/watch?v=lDoriWYHMRE

  7. Posted 16/06/2010 at 10h11 | Permalink

    Já conhecia um pouco e agora com detalhes e fotos.
    Muito legal, vou replicar….
    Cicloabraços….

  8. Diego Miguel
    Posted 26/07/2010 at 15h59 | Permalink

    então,
    tentei achar essa comunidade de Vauban a sudeste da alemanha, mas só encontrei uma Friburgo a sudoeste. Caso alguém saiba onde fica exatamente no mapa, pode me enviar, estou querendo passar por lá em uma futura viagem.

    valeuuu

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