
Em Munique, bem como nas outras cidades por onde já passei (Salzburgo e Viena), são raras as esquinas que não possuem semáforo de pedestre.Em São Paulo, na meia-dúzia de ruas onde eles existem, o ciclo de abertura é o seguinte: carros da rua A (que vêm reto) – carros da rua B (que dobram a esquina) – pedestres – carros da rua A….
Em Munique, no mesmo tipo de cruzamento, quando o farol abre para os carros da rua B, também abre para os pedestres. A diferenca é que os automóveis (além de usarem a seta) sempre dão preferência aos pedestres. E se o sinal fica vermelho, ninguém corre para sair da frente dos carros. Simplesmente mantém o passo até terminar de atravessar a rua.

Grades anti-pedestre instaladas pela CET em Sao Paulo
Já chorei algumas vezes ao ver estas cenas por aqui. Grande parte das lágrimas vieram da revolta com as políticas adotadas em Sao Paulo.As mais recentes excrecências são as cercas para impedir pedestres de atravessarem a rua fora da faixa. Tais medidas só são admissíveis em cidades onde tudo funciona a favor do pedestre. Onde, ao menos, existem faixas e semáforos de pedestres…
Gastar dinheiro com estas cercas e não com semáforos é punir a vítima. Recapear ruas e simplesmente não pintar as faixas de pedestre é um absurdo.
Será que é muito caro pintar travessias em toda a cidade? Será que “pega mal” eleitoralmente instalar semáforos de pedestre nas ruas? Será que é muito difícil fazer uma campanha educativa séria e comecar a punir motoristas que nao esperam pedestres atravessar a rua? Como diriam os irmãos do norte, “bullshit”…

Em uma cidade onde motoristas de Audis e BMWs também andam à pé, as campanhas de educação para o trânsito podem ser feitas em praça pública.No último domingo, dando um rolê por Munique, pude acompanhar uma acão educativa da polícia local, realizada em uma praça no centro da cidade.

As duas grandes preocupaçoes das autoridades de trânsito da capital da Bavária são o excesso de velocidade e o consumo de bebdias alcoólicas por motoirstas.Além dos panfletos educativos, a ação educativa era constituída por duas atividades interativas: uma simulação audiovisual do tempo de resposta do motorista em diversas velocidades e um jogo onde o cidadão usava um par de “óculos bêbados” para andar sobre uma linha reta e pegar uma bolinha no chão.

Sob o efeito de bebidas alcóolicas, esta é a noção de espaco do portador de armas urbanas de duas toneladas:

Quantas acoes deste tipo existiram nas praças de São Paulo no último ano?Quantos motoristas de Audis e BMWs em São Paulo também andam a pé pela cidade?
A resposta para as duas perguntas é bastante parecida…

Munique, Hauptbanhof, a principal estacao de trem da cidade.
Centenas de cicloturistas a cada dia, de todas as idades, de todos os países, indo de um lugar ao outro da Europa utilizando trens e bicicletas. Um continente interligado pelo transporte sutentável.


Sim, os alemães gostam muito de carros. Como também gostam de bicicletas, cerveja e futebol.
Talvez a diferença esteja no verbo: eles gostam; os paulistanos são dependentes e nutrem um amor psicótico por seus veículos, considerando-os um símbolo de status e uma arma de opressão contra os demais cidadãos.

BMWs, Audis e Mercedes circulam por todos os lados em Munique. Sempre dando seta ao dobrar esquinas, sempre parando na travessia de pedestres, respeitando os limites de velocidade e mantendo distância segura de ciclistas.Repito o que escrevi antes: nos três dias de bicicleta por Munique, não fui ultrapassado por nenhum automóvel a menos de 2 metros de distância, não vi nenhuma cara feia nem ouvi nenhuma buzina.

Nas ruas residenciais, o limite de velocidade é de 30km/h. Nas ruas secundárias, sobe para 50km/h. Preciso dizer que são respeitados?

Um detalhe fundamental: enquanto a burka brasileira fica cada vez mais escura, em Munique eu pude contar nos dedos de uma mão o número de carros que usavam as películas do medo (também conhecidas no Teceiro Mundo como insul-filmes).
Talvez porque os alemães saibam que o isolamento dos vidros escuros atrapalha bastante a visibilidade no trânsito, tanto para quem está do lado de fora, quanto para quem está dirigindo um carro, comprometendo a seguranca e a boa convivência entre todos os usuários das ruas.Afinal, os alemães de Munique já descobriram que a visão é um dos sentidos fundamentais para evitar mortos e feridos no trânsito.

Neste momento já estou saindo de Salzburgo, minha segunda parada na viagem. As postagens, no entanto, seguem falando de Munique.
O tempo é curto, muita coisa pra falar e mostrar. Os textos e fotos têm sido editados no meu Lentium portátil, em locais bastante desagradáveis como o da foto acima: um trem (que tem, inclusive, tomadas de energia elétrica).

Na estação de trem.

Na porta de quase todas os estabelecimentos comerciais.

Perto de praças.

Bicicletários, paraciclos, estacionamentos para bicicletas… Eles estão em todo lugar, em cada canto da cidade, sempre cheios. Amém, Munique!

O serviço de bicicletas públicas em Munique é prestado pela Deutsche Bahn, a empresa de ferrovias da Alemanha.O princípio é o mesmo do resto da Europa: o sujeito “encontra” uma bicicleta na rua, vai até o seu destino pedalando e deixa a magrela por lá para que próximo cidadão a utilize.
O Provos do século XXI é high-tech e (claro) cobrado em euro. Em Munique, as bicicletas ficam travadas por um sistema eletrônico e a liberação é feita pelo telefone (celular). Basta ligar, dar o número da bicicleta e o seu número de cadastro no serviço. Ao final do trajeto, outra ligação rápida e a trava eletrônica entra em ação até que outra pessoa deseje utilizá-la.
O mais incrível é que quase todo cidadão de Munique tem uma bicicleta. Mesmo assim, o serviço da Deutsche Bahn é bem utilizado, provando que “bicicleta gera bicicleta”.