Escritaterapia

arte: cabelo / igual você

14 semanas, pouco mais de 3 meses ou aproximadamente 100 dias. Essa é a quantidade de tempo desde a minha primeira manhã em Buenos Aires, quando uma tentativa de assalto me derrubou no chão e me deu de presente uma cirurgia, sete pinos e uma placa de titânio na perna.

Desde então, pouco ou quase nada foi escrito aqui nesse blog, que já vivia momentos de inércia pouco condizentes com a agitação de assuntos e acontecimentos relacionados aos temas aqui abordados.

A falta de atualizações não foi por desleixo ou falta de tempo. Simplesmente não consegui encontrar inspiração, vontade e disciplina para escrever. Não consegui superar o baque psicológico dos meses de molho, colar os cacos e aproveitar o tempo livre para mergulhos mais profundos. Demorei até para perceber que estava vivendo sobre algum baque psicológico, gastando energia com alguns tropeços na adaptação à “nova” vida.

“Tenha força e paciência. Porque os conflitos mais difíceis de serem vencidos são aqueles que estão dentro de nós”, lembro desta frase, dita mais ou menos assim por um amigo logo que soube do acontecido.

De fato, lutar por transformações no “mundo lá fora” é a parte mais excitante e fácil da batalha chamada vida. Mesmo com as redundantes frustrações e contra-golpes de uma sociedade crônicamente inviável, quem mantém a coerência com seus princípios (ou mesmo quem não se preocupa com eles) consegue ficar tranquilo a cada passo, apoiando-se na “zona de conforto” formada pela própria vida e pelas vidas com quem estabelecemos relações de afeto.

Difícil mesmo é enxergar as próprias contradições, detectar e corrigir erros, aceitar críticas, lidar com os conflitos e angústias que estão dentro de nós e, principalmente, aceitar as frustrações mais íntimas, entendendo que o mundo e as pessoas não são feitos à imagem e semelhança dos nossos desejos.

Em julho de 2010, eu tinha chegado à minha melhor condição física em tempos de vida adulta. Usando a bicicleta diariamente há mais de cinco anos, me sentia “dono” da minha cidade, tendo meu corpo como meio de comunicação entre eu e ela. Havia parado de fumar havia dois meses (depois de 10 anos de vício). Subia montanhas e enfrentava distâncias sem esforço, me relacionando com cada ponto do horizonte urbano como um “apêndice” da minha existência, utilizando-os como fonte de inspiração e motivo para ação.

Metonímia: não há como culpar a fratura, mas junto com a perna, outras coisas foram se quebrando.

A primeira e mais importante para o trabalho neste blog foi, sem dúvida, a impossibilidade de viver a cidade “ao vivo”. Contaminado por Jane Jacobs, senti que escrever sobre a cidade sem vivê-la é o mesmo que planejar sistemas de transporte público andando de carro.

Há duas semanas, “muletando” pela avenida Paulista, cruzei com os ridículos Segways que a PM paulistana exibe em alta velocidade nas calçadas por onde circulam 1,2 milhão de pessoas/dia. Senti pela primeira vez em muito tempo vontade de escrever. Entendi que, para mim, nada substitui o contato direto e não-mediado com a realidade. É ela que me inspira e movimenta.

Algumas relações também se quebraram. Demorei algum tempo para aceitar a solidão inexorável de uma situação como essa: ninguém consegue “estar no seu lugar”, entendendo e resolvendo os seus dramas, angústias e crises, sejam elas práticas (carregar um prato de comida) ou conceituais (e agora, José?). A batalha interna é sua, de mais ninguém. Explodi algumas vezes com pessoas bastante próximas e entrei em parafusos que deixaram farpas para vários lados e colhi com tristeza o resultado do destempero.

Também quebrei a trajetória de bem estar físico e mental trazida pela atividade cotidiana, mergulhando em uma escalada de sedentarismo que já me fez perder cinco quilos (segundo a fisioterapeuta, em músculos e ossos) ao mesmo tempo que (finalmente, diriam alguns amigos) uma “barriguinha” começa a aparecer. Bobagem dizer que eu voltei a fumar, já que a grande maldade do cigarro é ser um excelente companheiro para todos os momentos, especialmente para aqueles que demoram pra passar.

Além do blog, também assisti, inerte, tantos projetos e iniciativas de transformação da sociedade passarem, sem que eu pudesse ou tivesse vontade de intervir e participar, seja por dificuldades de locomoção ou pela letargia da rotina confinada, contra a qual (assumo) não consegui reagir durante um bom tempo.

arte: cc cabelo /igual você

O saldo não é nada animador. A vida correu lá fora enquanto os passos eram bem curtos e o tempo bem demorado aqui dentro. Seis meses (tempo estimado para a recuperação total) é pouco tempo se comparado aos meus 31 anos de vida, mas é muito se comparado às expectativas e caminhos que eu esperava para estes seis meses de 2010. Uma pena, mas “ces’t la vie” e ela não é cor-de-rosa.

Ainda busco sentido para esse acontecimento. Ou melhor, busco que o sentido desse acontecimento se assente dentro da minha vida. Consigo encontrar alguns bons aprendizados e “lições”. Consigo ver algumas “coincidências” e “acasos”, mas não me perco mais buscando encaixa-los em algo que faça um sentido absoluto. Não é bom ficar remoendo a sensação de que é possível voltar no tempo e mudar um centímetro (ou alguns metros) de atitude para que nada tivesse acontecido. Isso só existe no cinema.

Dizem que os 30 anos marcam uma virada de equilíbrio na vida, que é nesta fase que consolidamos realmente quem somos e o que fazemos. Se a minha síndrome de Peter Pan nômade, disperso e ultra-exigente não foi inteiramente aplacada, talvez o “choque de realidade” desta experiência me ajude no caminho em direção ao tal equilíbrio.

Pelo menos simbolicamente já consegui saciar de maneira divertida a busca por algum sentido de almanaque: meus dois grandes “acidentes” até então haviam sido do lado direito do corpo: um tiro no pescoço (que me deixou parcialmente surdo do ouvido direito) e uma mão quebrada em uma briga de irmãos, pouco antes de sair da casa dos meus pais, há seis anos. Desta vez, o lado afetado foi o esquerdo.

Sigo pelas próximas duas semanas me locomovendo com duas muletas. Depois, mais duas semanas com uma muleta apenas. As caminhadas já estão bem mais longas e atualmente já consigo utilizar transporte coletivo, escapando um pouco da vida de passageiro de taxi ou carona. Bicicleta? Por enquanto, começando a pedalar uma ergométrica sem carga na fisioterpia…

A retomada psicológica ainda não veio, a espera continua bem cansativa e entediante para estimular algo nesse sentido. Ao contrário do osso, que só precisa de tempo e alimento, cicatrizar a alma também depende de vontade e iniciativa. Pequenos estímulos: a perspectiva de encarar a cidade como um pedestre manco é bastante animadora e a noção de que depois do fundo do poço não existe mais nada faz a gente voltar pra cima. Os “sentidos da vida” descobertos nessa trajetória, ainda que não totalmente compreendidos, abrem novas perspectivas e despertam a vontade (até porque não existe outro jeito) de descobrir estes caminhos.

O apocalipse motorizado continua, ainda que o momento histórico seja bastante diferente daquele que motivou a criação do blog em 2005. Vivemos em tempos de greenwashing, onde o verde é o novo dourado. Por um lado, o marketing verde oferece mais do mesmo com nova embalagem, obscurecendo a razão, dificultando a crítica e a ação realmente transformadora. Por outro lado, é visível o amadurecimento da sociedade em algumas questões tratadas neste blog, resultando em uma profusão de informações que não existia antes, na ampliação do debate e até no próprio “marketing verde”.

Da mesma forma que o tempo de uma vida é bem maior que o tempo de recuperação de uma perna quebrada, o tempo histórico é bem maior do que o tempo de uma expectativa. As mudanças são lentas e a reação a elas, no Brasil, é sempre muito forte.

Na era em que até carros são chamados de “verdes” sem que haja alarde, escrevo esse texto como terapia, manifestando o desejo de que o blog resgate o seu sentido de inspiração, articulação e registro histórico, encontrando o seu novo lugar em tempos que já não são os mesmos.

Sei que isso não depende apenas do tempo, mas sim de vontade e iniciativa. Peço desculpas aos leitores porque as duas características andaram em baixa nos últimos meses. Espero que o exercício de voltar a escrever aqui, a vontade de avançar em outros projetos e a recuperação lenta e constante ajudem o blog e seu autor a encontrar um lugar mais tranquilo neste surpreendente segundo semestre de 2010.

Compartilhe

48 Comments

  1. Sandinista
    Posted 19/10/2010 at 15h49 | Permalink

    Continuo por aqui, fiel, sabendo que mesmo demorado, quando “pinga” algum texto é coisa boa. Parabéns. Tenho comentários a tecer sobre alguns pontos, mas prefiro fazê-lo ao vivo.
    Espero ter essa chance o quanto antes! Grande abraço.

  2. Posted 19/10/2010 at 15h57 | Permalink

    Caríssimo luddista,

    força pra vc. Estamos aqui, compartilhando esse momento contigo. E seja bem-vindo de volta, seus posts fazem falta.
    Abs

  3. Posted 19/10/2010 at 16h29 | Permalink

    Embora trabalhe muito perto da sua casa, lhe escrevo de um mundo longe do seu.
    Aqui o tempo

  4. Posted 19/10/2010 at 16h32 | Permalink

    Embora trabalhe muito perto da sua casa, lhe escrevo de um mundo longe do seu.
    Aqui o tempo é escaso, a comunicação restrita. Possuo liberdade de locomoção, mas não de tempo.
    Com freqüência, as jornadas diarias não passam de dilatados hiatos à espera do instante da volta para casa, quando a dimensão temporal, na bicicleta, é diferente.
    A partir daqui, impossível não associar sua situação à do Jeff (James Stewart), do filme A Janela Indiscreta de Alfred Hitchcock.
    Aliás, use-a janela sem moderação, assim terei o que responder quando surgir a pergunta ‘Who watches the Watchmen?’.
    Bem-vindo de volta…

  5. João
    Posted 19/10/2010 at 18h29 | Permalink

    lludista,

    Boa sorte e paciência. Não, se preocupe, basta um pouco de tranquilidade e atenção pra não deixar esse período ficar negativo demais. As pausas terminam cheias de energia, mais até do que vc tinha antes.

    Abs.

  6. Andre Wolv
    Posted 19/10/2010 at 18h46 | Permalink

    Você faz um ótimo trabalho aqui no blog, e fico muito feliz com teu retorno, pois teus posts são realmente inspiradores. Não posso oferecer ajuda, e acho que ninguém pode, né? Mas torço muito para tua completa recuperação, pois tuas idéias postadas aqui são verdadeiras geradoras de mudanças… pelo menos em mim, e no modo como eu vivo e interpreto a cidade e a vida.

  7. Caio
    Posted 19/10/2010 at 19h25 | Permalink

    Força, meu velho.

  8. Posted 19/10/2010 at 19h29 | Permalink

    Caro Thiago, seu blog foi a inspiração para eu começar a pedalar em São Paulo.
    Depois, quando encontrei você na Bicicletada, percebi que você vivia o que “pregava” e fazia isso de uma forma suave sem empurrar nada ao pessoal que vive na bolha.
    Simplesmente vivia o que acreditava e dava o exemplo, o bom exemplo.
    Sei que não é possível estar no seu lugar para saber o que está passando, mas sou solidário com sua dor.
    E acredito que veremos você brevemente vivendo suas idéias e inspirando novos e antigos ciclistas.
    Força.
    Abraços.
    Fabiano

  9. Posted 19/10/2010 at 21h05 | Permalink

    Thiago, se você não parar logo com esse drama, vou procurar outro blog para me inspirar! E eu não quero fazer isso!

    Volte logo a nos dar a alegria da sua escrita!!
    Seis meses passam rapidinho… eu nem tinha percebido que já tinham se passado três. Logo logo vc estará livre pedalando por aí!

  10. Posted 19/10/2010 at 21h32 | Permalink

    Opa mestre,

    Bom ler de novo aqui. Seja bem vindo! Força rapaz, agora é a reta final, faltam poucos degraus!

    2011 pedalaremos!

  11. Posted 19/10/2010 at 21h53 | Permalink

    Oi Thiago, desde que me conheço por bicicletista que acompanho seu site. Sem te conhecer, deu pra perceber que vc estava por aí, macumunando-se. Que bom que sua terapia também é escrever!
    Aguardando seu tempo, vamos aqui, na escuta e na torcida.
    Abraço!

  12. André Pasqualini
    Posted 19/10/2010 at 23h12 | Permalink

    Vontade que o mundo acabe em barranco para morrer encostado. A vida tem várias maneiras de nos tirar as pernas, consigo entender exatamente o que você está passando, nossa crise dos 30 atrasou mas chegou com força.

    Não te dou conselhos pois se estivermos juntos reclamando da vida ai da sua casa é capaz que os dois amanheçam estatelados na Paulista. O que está funcionando para mim é sobreviver a essa maré e torço para daqui a uns 20 anos, olhar pra trás e dar risada de tudo isso.

    Abraços e melhoras.

  13. Posted 20/10/2010 at 0h21 | Permalink

    Viu como nem todo sofrimento é só ruim? Belo texto.

  14. Leo
    Posted 20/10/2010 at 9h32 | Permalink

    Só conhecemos nossos limites quando postos a prova. Força, luddista.

  15. Posted 20/10/2010 at 9h44 | Permalink

    Compartilho com você toda a angústia, pois também passei por momentos difíceis e ainda estou tentando me recuperar. Também resolvi escrever no meu blog (http://bikesemlimites.blogspot.com/2010/04/bike-e-livros.html) sobre a minha agonia mas, o que eu não entendi direito foi o retorno ao cigarro. Da mesma forma que você, também sou ex-fumante, mas em momento algum pensei em voltar, portanto, pense no que está fazendo agora.
    Um abraço e boa recuperação.

  16. Posted 20/10/2010 at 10h24 | Permalink

    Thiago,
    mais do que a metonímia da fratura, sinto a hipérbole da imobilidade.
    Não poder locomover fisicamente não lhe assemelha ao imobilismo que vemos na luta pelas transformações, “a letargia das rotinas confinadas”? (gostei deta frase!!)
    Nestes 5 anos de blog, alguma coisa mudou – mudou pra valer?
    Não é pra desanimar não, mas aos 45 anos continua esta mesma angústia de uma vida curta para as grandes transformações necessárias. A morte vai chegar e não veremos a sociedade que queremos. O que nos resta? Se você descobrir, faz um post bacana ;-P

  17. Ronnan
    Posted 20/10/2010 at 11h28 | Permalink

    Por aqui continuo minha longa busca de sabedoria, e fé de que é possível mudanças no nosso País, através do Blog, obtive conhecimentos e experiências as quais impactaram diretamente na minha vida…
    Eu tenho muita fé em DEUS, e acredito q inspiração não irá lhe faltar, nem mesmo força de vontade para voltar e manter esse ótimo e precioso trabalho o qual já faz a muitos anos!!!

    “onde estiver seja lá como for,
    Tenha fé porque ate no lixão nasce flor….”

    A vida segue…

  18. Posted 20/10/2010 at 12h12 | Permalink

    força aí!
    abraço de portugal

  19. Roberto
    Posted 20/10/2010 at 13h45 | Permalink

    Força Thiago ! Seus posts realmente fazem muita falta, e porque não dizer que suas atitudes em meio ao trânsito também não fazem falta!?? Nunca consegui entender muito bem as suas atitudes calmas frente a violência dos motorizados, talvez seja isso, mais um teste a sua tão admirada paciência.

    Vivemos atualmente a transformação por isso achamos ela tão pequena, mas pra quem analisa a causa ao longo dos anos a diferença é enorme entre o que tínhamos e o que temos. Com certeza não teríamos o que temos sem você e esse blog. Continue sem dó!

    Grande abraço

  20. juliano
    Posted 20/10/2010 at 14h45 | Permalink

    é isso aí. até a amargura cansa. isso vai fazer você voltar com mais alegria.
    contamos com vc

  21. Posted 20/10/2010 at 17h54 | Permalink

    Pô, que bom ver o RSS marcando um post não lido do Apocalipse…

    E não é uma beleza essa liberdade de blog?

    Um lugar onde podem aparecer contradições, pausas e cia. Grande aliado, o blog. Um canto onde ninguém manda, ninguém pesa na sua, onde podemos respeitar nossos limites, tempos e encanações.

    Porra, o lance de viver a cidade é evidente p/ quem lê o Apocalipse, ficando a falta de posts plenamente entendida.

    Hj, por conta de uma matéria, estava falando com uma amiga sobre a reclusão de pessoas com psoríase, de como elas deixam de sair por conta da pressão psicológica imposta pelo preconceito manifestado nas ruas e tal.

    É isso. As barreiras e limitações de mobilidade na nossa sociedade não estão apenas nos modais de transporte. Fiquei feliz de seu texto trazer com tanta sensibilidade estas questões.

    30 anos. Que fase! Mire a crise atual do Laerte (em entrevista para a revista Bravo) e veja só as maravilhas que o tiozão tira dela.

    Força!
    Marcel

    PS. Já havia comentado aqui, mas não entrou, então reescrevi com o que lembrava

  22. Palmas
    Posted 20/10/2010 at 19h00 | Permalink

    Lludista,
    Seus artigos são as nossas pernas. Volta que esta difícil navegar de muleta.
    Abratz,
    Palmas

  23. Tiago Costa Nepomuceno
    Posted 20/10/2010 at 19h54 | Permalink

    Ofereço um trecho de um junguiano que estou lendo. Sei que falar é fácil, mas ainda assim desejo que você aproveite ao máximo esse pantanal…
    Abração!

    “Podemos vivenciar momentos de felicidade, mas eles são efêmeros e não podem ser criados pela vontade nem ser perpetuados pela esperança. Em vez disso, a psicologia junguiana, bem como grande parte da rica tradição mitológica e religiosa da qual ela extrai muitos de seus insights, afirma que são os pantanais da alma, as savanas do sofrimento, que fornecem o contexto para a estimulação e a obtenção do significado. Há 2.500 anos, Ésquilo observou que os deuses determinaram um solene decreto, dizendo que é através do sofrimento que alcançamos sabedoria. Sem o sofrimento, que parece o requisito epifenomenal para o amadurecimento psicológico e espiritual, permaneceríamos inconscientes, infantis e dependentes. (…) O pensamento, o tema e a prática da psicologia junguiana é que não existe nenhuma campina ensolarada, nenhum caramanchão repousante onde podemos dormir tranquilamente; existem, ao contrário, pantanais da alma onde a natureza, nossa natureza, pretende que vivamos grande parte da jornada, e de onde derivarão muitos dos momentos mais significativos da nossa vida. São os pantanais onde a alma é fabricada e forjada, onde encontramos não apenas o gravitas da vida, como também seu propósito, sua dignidade e seu mais profundo significado.”

  24. Sarinha
    Posted 20/10/2010 at 20h17 | Permalink

    Meeeu, é muito contraditório ouvir “são apenas x meses, pare com isso” porque o tempo realmente é muito diferente quando estamos em uma situação difícil, não parece rapidinho, dá tempo de criar vários tipos de medos na cabeça e às vezes nos sentimos num cárcere, pelos tantos “não posso”…Não são eles que estão sendo egoístas, não somos nós que estamos fazendo drama, são os momentos que parecem não estar em sincronia, pq dá para imaginar uma dor, mas sentir como alguém sente é impossível, por isso é impossível se por no lugar de alguém, a vivência de uma dor é única em cada um.
    Pensando assim, não saberia quais palavras poderia escrever aqui para te ajudar ou aliviar um pouco.
    E mesmo você achando que deve desculpas aos leitores, que é negativa a sua inércia, quando estiver em outro tempo, vai perceber que esse período foi necessário, que se tivesse digerido ele de outra forma, você teria uma congestão depois. Como escreveram aí mais acima, “nem todo sofrimento é só ruim”, a tristeza e frustração fazem parte, viver sem isso ou sem conseguir digerí-los é acreditar no “mundo da Barbie”, onde só existem pessoas felizes, bem sucedidas e bonitas.
    Parece falta de sensibilidade dizer que a tristeza nos permite ficar mais e mais fortes, mas você vai sentir, e eu espero estar por perto, a gigante alegria de poder caminhar como antes, sem alicerce artificial, sem dores, sem limitações de movimento.
    Voltei a pedalar e caminhar um pouquinho, ainda sinto dores, sinto algumas limitações de movimentos, mas acredito que é questão de (bom e velho) tempo, por outro lado, sinto grande entusiasmo e euforia, hehehe, dou valor aos movimentos como nem imaginaria antes, enfim…
    Parece que o que estou passando é metade do que você está (pelo tempo menor de recuperação, pela não necessidade de cirurgia, enfim) e vejo o quanto você é foda, mesmo abatido e desanimado não há nada que me faça duvidar de você.
    Então meu caro, use e abuse do tempo que lhe for necessário, produzindo ou abstraindo, de qualquer maneira vamos colher bons frutos (vc e nós leitores) tenho certeza. E o principal: não sinta culpa de nada, você não deve desculpas, meeeesmo! Antes de inspirar alguém, você deve se preocupar em se inspirar em si mesmo, porque motivos não faltam. (nossa, ficou feia essa frase, se, si, só, su, são…)
    Um abraço bem fortão numa brisa leve de fim de tarde ensolarada, num parque com toalha xadrez estendida, cheia de gostosuras e amig@s envolta, com as bikes encostadas, ali naquela árvore! hahahaha, minha imaginação é meio estranha quando estou comentando em um blog e atrasada para entrar na aula…
    ;)
    qq chulé grite!

  25. Sarinha
    Posted 20/10/2010 at 20h19 | Permalink

    caralho, não sabia que havia escrito tanto assim! Foi mal aê…

  26. Posted 20/10/2010 at 20h41 | Permalink

    o silêncio do teu blog me disse: Vai dar um rolê você já ficou tempo demais on-line

    foi útil esse silêncio

  27. Bruno Rodrigues
    Posted 20/10/2010 at 20h43 | Permalink

    Thiago… Lendo seu texto, eu acabei de me lembrar que ainda não havia tido a oportunidade de te agradecer. Em 2008, achei seu blog e através dele, o mundo da bicicleta como meio de transporte. Graças a você, pude rever meus conceitos e meu estilo de vida. Sou um carro a menos.

    Nunca comentei no seu blog, mas sempre o acompanhei desde que o encontrei. Acho que isso aconteceu porque eu gostaria de te conhecer e dizer isto tudo pessoalmente.

    Como corro o risco de não ter esta oportunidade tão cedo, gostaria de dizer agora.

    Obrigado.

    E força, meu amigo. Espero te encontrar em uma esquina, pedalando ou não, mas sorrindo.

  28. poço
    Posted 20/10/2010 at 21h00 | Permalink

    Vc é referencia de resistência, meu querido, e o sucesso do blog é indicativo disso. Resista mais esse tanto ai e, enqt isso, continua transformando insatisfaçao em poesia.

  29. Posted 20/10/2010 at 22h59 | Permalink

    Carnaval de 2012, já de perna boa, e eu já morando na Gamboa de Cima (ah, vontade de ler Mar Morto…!), você passa em Salvador.

    Pra pular na pipoca e ver ao vivo o que resta da segregação de espaço público das cordas&abadás, de que te falei num texto que eu queria muito que tu publicasse aqui e até agora não rolou.

    Só não vai dar pra pedalar que você vai estar na boca da folia – perto demais para não ir a pé. Mas, querendo, vamos os dois tomar sorvete de Mangaba com Siriguela na Ribeira, a pedal.

  30. Posted 20/10/2010 at 23h01 | Permalink

    esse é meu jeito, bem bahiano, de te desejar força e melhoras.

    Cá na terra que pra receber crianças, orixás e parentes distantes, se dá carurú com mais de 20 quitutes numa mesa…

  31. Posted 21/10/2010 at 9h16 | Permalink

    Lindo mesmo, Luddista.

    Espero todas as melhoras possíveis.

  32. Posted 21/10/2010 at 10h02 | Permalink

    Thiago,

    não o conheço pessoalmente, mas foi por conta do seu blogue que comecei a arriscar minhas primeiras pedaladas como transporte, fiz a leitura do livro homônimo, pensei muito a respeito e tudo fez sentido, pedalei ainda mais e hoje, anos depois, tenho a bicicleta praticamente indisociada à minha personalidade.

    Assim, gostaria de dizer palavras de gratidão e ânimo, mas penso que, ao contrário do que diz a sociedade de consumo que quer todos sorrindo e gastando sempre, sentir e compreender a tristeza é o primeiro passo para superá-la.

    Uma bicicleta quebrada continua sendo uma bicicleta. Você não é bobo e supera essa.

    Sincero abraço.

  33. Paulo Fernando G Teixeira
    Posted 21/10/2010 at 10h38 | Permalink

    As vezes a vida nos apresenta essas situações, onde somos obrigados a parar. Aí está uma oportunidade para “fechar p/ balanço”.
    Esse (belo) texto, creio fazer parte de sua terapia, como o próprio título enuncia, se complementando as seções de fisíoterapia. Esta recuperando os movimentos físicos, aquela restaurando a parte espiritual.
    Bom retorno.

  34. luddista
    Posted 21/10/2010 at 11h35 | Permalink

    Caramba, emocionante… Obrigado a tod@s pelas palavras de sabedoria, carinho e companheirismo. Mesmo!

    Não acahava que a terapia ia render tanto assim, mas a cada comentário que chegava o pântano ia ficando menos complicado, mais emocionante, menos intenso.

    abraços y adelante!

  35. Lindóia
    Posted 21/10/2010 at 13h34 | Permalink

    Caro Thiago,

    Não é à toa que o convalescente é chamado de “paciente”, pois o que resta a ele é o exercício da paciência.

    Anos atrás eu tive uma experiência parecida: no meio de uma vida profissional intensa, preocupado com prazos e resultados, fui obrigado a parar por 40 dias para uma cirurgia e recuperação.

    Fui obrigado a engolir essa parada obrigatória sem opção. Durante esse tempo fiquei refletindo sobre as coisas e sobre a vida, coisas que costumamos fazer quando “quase morremos” ou quase acontece alguma coisa, e percebi que nada é pra sempre. Tudo muda, tudo passar, nada é permanente…nem as coisas boas, nem as ruins.

    A vida tem fases boas, fases mornas, fases ruins. A arte de viver é saber lidar com esse ciclo e tirar dele o máximo de proveito possível.

    Depois de sair dessa fase vc vai perceber o quanto ela foi importante pra que vc pudesse ver novas realidades que os seus olhos antes não poderiam ver.

    Encare o o momento como um “up grade” da consciência. Seu Mundo será muito maior se perceber a importância do presente para o seu futuro!

    Abs

    Lindóia

  36. Wolfgang Fischer
    Posted 21/10/2010 at 14h47 | Permalink

    Thiago.
    No final de julho minha filha caiu da bike e fraturou a tibia. Nada tão grave quanto o teu caso (foi só um pino) mas até agora ela tem que juntar a paciência e a disciplina, tão pouco características da adolescência, para insistir na fisioterapia.
    Fiquei contente de ver novamente um texto teu no blog, ainda que com teor um tanto pessimista. O retorno à escrita já é um sinal de recuperação.
    Estarei toda semana visitando o Apocalipse, à procura de novos sinais, daqueles que inspiram a olhar a nossa cidade com olhos novos, a olhar as distâncias não como dificuldades mas como oportunidades de boas pedaladas, e também a criticar o que não está funcionando bem na cidade.
    Abraços, amigo. E força nos pedais (ainda que metafóricos).

    Wolfgang

  37. Posted 21/10/2010 at 18h17 | Permalink

    Comencé a leer tu blog hace poco y siempre lo encuentro muy interesante.

    Creo que más que la cantidad de posts en un blog, lo que las personas como yo valoramos cada vez más es la profundidad de las palabras y la reflexión, en un momento en que cada vez se produce más contenido vacío y sin sentido. Este blog tiene una voz muy poderosa y la seguirá teniendo con una o tres notas por semana.

    Espero que el tiempo de cura de tu pierna se acelere y que puedas volver a Buenos Aires a dejar ese mal recuerdo de lado :)

    Saludos!

  38. Kikavaidemagrela
    Posted 21/10/2010 at 19h16 | Permalink

    Tudo que vc escreveu é abosolutamente compreensível.
    Sinto, assim como tantos, essa pausa no Blog.
    Mas, sabe-se lá porquê (!?!) exatamente (e talvez, nunca vc saberá ao certo) ela se faz necessária…, te é necessária!
    Pausa pedal.
    Pausa CIDADE na CIDADE que não pára.
    Pausa na causa…
    Por mais que todo esse sentimento pareça ser eterno, já já ele também PAUSA!
    E viva a cidade, viva vc, viva o CAOS e
    VIVA A VIDA!
    Inté!

  39. Felipe M. P. Ribeiro
    Posted 21/10/2010 at 21h50 | Permalink

    Força camarada. Como eu muitos outros sentiram falta dos seus escritos o inspiradores, bom ver o blog atualizado.

  40. Posted 22/10/2010 at 17h18 | Permalink

    Muito emocionante o texto, parabéns! Seu blog é um pioneiro na causa e devemos muito a você. Seu texto me encheu de fé e esperança. Raça e coragem, o tempo é amigo dessas palavras. Um abraço!

  41. Pedro
    Posted 24/10/2010 at 15h57 | Permalink

    Caro Thiago,
    encontrar o seu blog aqui há mais de um ano foi a motivação definitiva para eu começar a andar de bicicleta em São Paulo depois de morar 14 anos (pedalando) na Europa. Por isso quero lhe agradecer e desejar melhora rápida, em todos os sentidos. Hoje eu vou para o trabalho de bike e nos fins de semana saio para uma simples pedalada, estou começando a organizar meu próprio grupo lá onde trabalho…e quero dizer ainda que senti falta dos posts daqui. Espero que vc volte a ser tão profícuo quanto antes!
    Um abraço!

  42. Posted 24/10/2010 at 21h16 | Permalink

    Olá,

    Ontem assisti seu debate no Urbania 4 – pela internet mesmo. Parabéns pela participação

    Também estou passando por uma fase bem difícil na minha vida – de um certo imobilismo social e psicológico – e seu texto, sem dúvida, contribui para eu pensar sobre esse lado que emerge – e está me deixando sem palavras nesses meses todos.

    Paro por aqui, por não conseguir expressar o que estou vivendo. Apenas agradeço por suas palavras – e pela experiência que sempre proporcionou aqui com esse espaço de comunicação e compartilhamento.

    Grande abraço.

  43. Fabrício Valério
    Posted 28/10/2010 at 18h16 | Permalink

    Se você tivesse ido no meu casório, mesmo manco, aos trancos e barrancos, já estaria existencialmente curado, irmão. Há, há, há!
    Estamos aí. Beijo.

  44. Posted 06/11/2010 at 14h32 | Permalink

    Quase todo dia entro por aqui para ler algum pingo de inspiração, e imaginei que algo semelhante pudesse passar por sua cabeça.
    Força, meu camarada, você é pura inspiração!

  45. Posted 02/12/2010 at 8h59 | Permalink

    Grande, muita força aí!

    Também me quebrei no auge da forma física, jogando rugby, duas cirurgias de LCA (joelho) e uma tíbia quebrada durante o momento mais feliz do mestrado em POA. Entrei em depressão profunda, tava solito, mas assim como a reabilitação física, a dor na alma passa… Fica o conforto de quem tem certeza disso. Super abração. A luta continua!

  46. Posted 07/01/2011 at 13h24 | Permalink

    Cara, porra, parabéns. Pedalo há um ano em São Paulo como ciclista de fim de semana e a partir de agora vou usar a bike para ir trabalhar. Bike é liberdade… as pessoas não entendem; não é só liberdade de locomoção, é liberadade de escolha, quebra com os valores impregnados na sociedade, na cabeça oca das pessoas que pensam que você está indo trabalhar pedalando só para economizar uma grana.

    Infelizmente a violência é algo presente na nossa vida. Em Bue não é diferente e, aliás, a cidade é mais bike-unfriendly do que Sampa.

    Encare isso como uma pausa para meditar, por pior que tenha sido o evento. O fato de você estar vivo já é uma benção. A vida e a consciência são sua última liberdade. Se elas não forem tiradas, as outras liberdades você conquista.

    Parabéns pelo blog!

  47. Jéssica
    Posted 11/01/2011 at 12h17 | Permalink

    Ainda não havia lido.
    Lindo ver que desde que escreveu, a bicicleta voltou a fazer parte da sua vida nas ruas!

  48. Posted 08/04/2011 at 16h57 | Permalink

    volta aí, mano. mesmo que seja pra fazer terapia.

One Trackback

  1. […] um trecho do post Escriterapia que relata profundamente essa etapa da vida dele (vale a pena a leitura […]

Post a Comment

Your email is never shared. Required fields are marked *

*
*